sábado, 11 de agosto de 2012
O neto ( tradução que fiz do meu próprio texto em espanhol
O neto
- Menina, como você está bem! Que que você faz para ter essa figura de dar inveja? Os anos não passam para você.
Todos a elogiavam, menos alguns vendedores do povão que a chamavam de Tia, com ar de quem quer dizer velha tia. Ainda não tinha o apelido de vovó. Mais alguns anos... Dolores certamente não aparentava seus sessenta e sete anos. Não era magra, nem gorda. Esbelta, cultivava o corpo na ginástica desde os quinze anos, pelo menos.
Mulher “moderna”, tentava seguir a moda sem medo de parecer ridícula. Às vezes, usava a saia acima do joelho e uma blusa apertadinha lhe marcava os seios e a cintura: uma moda para garotas,em 2010, que as mulheres mais velhas não devem adotar. Exceto quando conservam um corpo perfeito, o que é quase impossível para a maioria das brasileiras, adeptas do feijão com arroz.
Seu pesadelo, a idade. Pensava em coisas excitantes que seu corpo e seus hábitos não lhe permitiam mais e se angustiava. Até os quarenta e tantos, era possível ter fantasias de festas monumentais, trajes novos a todo momento, mil amigos, namorados e, em seguida, um marido sempre companheiro de farra.
Filhos criados, marido morto, ameaça de solidão a lhe atrapalhar a vida, enfraquecendo sua vontade de experimentar todas as sensações. Aos poucos, a depressão envolvia-lhe a alma, o corpo começava a marcha inexorável para o encolhimento, produzindo-lhe uma curvatura grande nas costas.
Sempre evitava olhar-se no espelho, pois o medo da verdade a assombrava. Desviava o rosto ou dava uma olhada rápida. Aposentada, tinha tempo livre para se ver por muito tempo. Por certo não era seu rosto o que o reflexo do espelho lhe exibia: cheio de rugas, sobretudo, as clássicas em volta dos olhos e na boca, a pele flácida do pescoço, o cabelo escuro a se manchar na cabeça, os cabelos brancos se obstinavam em aparecer na raiz... A Terceira Idade chegara para nunca mais ir embora.
Assim, o neto concentrava suas esperanças de uma existência sem atropelos, de volta às gargalhadas e não de emoções massacradas pelo destino. Não a interessavam os outros, ainda que fossem pessoas de apelo evidente. Desejava o calor do bebê, desde o instante em que o havia visto.
Ficava encantada com seu sorriso, quando ela lhe fazia trejeitos graciosos ou brincadeiras ou ria com ele. Orgulho de ser a primeira pessoa a receber seu sorriso. Depois, quanto tinha nove, dez meses, os primeiros passinhos. Dolores estava perto para lhe dar confiança, faze-lo sentir-se capaz. Como gostava do banho da tarde! Era um momento mágico de alegría e confusão, vivido por ambos.
O neto lhe garantia uma vida sem problemas porque ela os jogara no lixo, com exceção dos dias em que não estava perto da criança. Mas esperava por ele com a certeza de que voltaria a seus braços. A mãe trabalhava fora de casa, precisava de uma avó livre de compromissos para cuidar do filho em sua ausência. Que maravilha!
Feriados e fins de semana eram um pouco mais tristes: os pais desejavam a presença do filho e ela tinha que viver dos preparativos para recebe-lo na semana seguinte. Além do mais, que merda! Era obrigada a disputar a criança com a avó materna, dona de uma situação semelhante de idade, mas com marido vivo. Ás vezes, tinha vontade de mata-la, e o confessava às amigas pelo telefone - é claro que se acostumara a lhes falar por telefone.
- Veja só! Vou passar uns três dias sem te-lo só para mim. Essa mulher é terrível: vive uma vida mansa e não nos deixa em paz.
Dolores jorrava palavras a respeito de seu anjinho, a ponto de não escutar o que as amigas antigas diziam. As novas, não, porque não as tinha.
- Sem meu neto, prefiro morrer. O aparecimento dele em minha vida me levou ao caminho da felicidade quase perdida. Você sabe, avó é mãe com açucar.
Uma mulher não abdica de seus prazeres, a não ser quando a velhice bate a sua porta, aos setenta anos ou mais. Aí, tem que optar, como o poeta Robert Frost, por uma ou outra estrada: a vida sem sal, sem expectativas ou a dedicação a alguém que nos faça menos dolorosas as mudanças. Um trabalho diferente não é fácil para uma senhora idosa, o interesse pela caridade, pelos pobres, nem sempre é uma vocação, uma habilidade especial: pintar, bordar, tecer... não é para qualquer uma, por mais que sejam calmas até demais para mulheres como Dolores, por exemplo.
Pior que tudo, as mulheres mais velhas tem que refrear os desejos da carne, expressão dos católicos antigos, aceitar as limitações sociais, ocupar-se com outros pensamentos. Nenhum homem, em nosso mundo ocidental, se interessa sexualmente por mulheres de setenta anos ou mais: preferem preservar a masculinidade e a vaidade com as mais jovens.
Portanto, tem que levar a vida sem irritação, sem queixas nem exigências, para não afastar as outras pessoas. E é nessa hora que surgem os netos, presente de Deus. Vem na hora certa, enchendo os avós de novas criancices, os aposentados de afazeres prazerosos. Orgulhosos, vão pelas ruas empurrando carrinhos de bebê, substituem as mamães. Sobretudo, durante o dia, porque de noite elas voltam a pegar os filhos.
- Quero seguir cada progresso de meu neto, suas tentativas de sentar-se, de andar, de falar, dividindo com os pais, às vezes, mimando-os em demasia, por que não? – pensava Dolores com entusiasmo.
Seu ínico medo, o momento em que os pais não confiassem mais em suas forças para as tarefas. Sim, porque a velhice não para. Um movimento brusco da cabeça ou dos joelhos e tudo se complica. Se chega a hora das quedas e enfermidades sérias, muito pior. Ela conhecia mulheres que não se mexiam de casa, nem para visitar a família. Rezava dia e noite para que seu santo favorito lhe concedesse a graça do acesso ao neto pelos anos que lhe faltava viver.
A manhã de aquele dia funesto chegou com sol forte de verão, que não invadiu seu leito vazio de mulher sem nenhuma companhia, nem a convidou a ir à praia. Abriu os olhos lenta e progressivamente.
Olhou o teto do quarto por alguns instantes. Não compreendia porque não desejava começar a vida cotidiana. Alcuma coisa não estava em seu lugar. Seria o calor? A lâmpada que deixara acesa toda a noite? A janela de madeira fechada que sufocava o ar? A brisa fresca que se esquecera da cidade de calor incessante? As nuvens ameaçadoras de chuva e trovoada desde as primeiras horas da manhgã? O marido que não passara a noite a seu lado? A filha que não queria viver numa cidade tão difícl? O avanço da criminalidade por toda parte? O amigo doente que não se curava?
Tentou ouvir os ruídos comuns da casa: os passinhos da empregada, o ron-ron-ron da geladeira velha, o trinar dos passarinhos de sempre em sua janela, a voz disfarçada dos vizinhos...
Ficou sem se mexer. E. para seu desespero, compreendeu tudo: era aausência do neto que jamais tinha tido. Então, chorou.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Folias Modernas
Mudei eu?
Folias modernas
Vésperas de Carnaval. Passo pelas ruas de meu bairro na manhã do sábado dos primeiros blocos, uma semana antes da data estabelecida para o Carnaval. Vejo transeuntes “fantasiados”: dois chifrinhos de diabo, duas orelhinhas de Mickey Mouse na cabeça, uma fita dourada passada pela testa, lata indefectível de algum líquido na mão, um exército de vendedores de água mineral – produto na última moda de uns anos para cá - ou talvez de cerveja camuflada depois dos choques de ordem do prefeito, não sei. Só sei que homens e mulheres suam muito até chegar aos pontos de distribuição, paga e bem paga, é claro, e ganhar seu pão incrementado da época, enquanto os menos necessitados se divertem.
O tranzetê da praia para casa ou de casa para a praia não pára. Gente de todas as tonalidades e línguas se mesclam umas com as outras, quase se trombam.
- What is this? – pergunta o americano recém-chegado, espantado com a cor e a consistência do assaí do meu bar predileto, sorvido com delícia pela nova juventude ecológica. .
- It is very good, afirma o tradutor, em pronúncia péssima por sinal.
Meio atordoada, dirijo-me ao balconista simpático e bem vestido. Aliás, até o boteco passou a usar trajes de gala, por determinação do tal choque de ordem do prefeito – Leblon só pode ter comércio chique, viu, gente?
Peço um belo suco e converso com o moço, conhecido de outros carnavais.
- Você já comprou seus chifrinhos ou suas orelhinhas ou sua gravatinha dourada para se fantasiar daqui a pouco? Eu encomendei os meus, mas ainda não os trouxeram. Você sabe, coroa tem que caprichar, né mesmo? É mesmo. Fantasia da Zona Sul do Rio de Janeiro é isso aí.
Penso no tipo de folia de hoje, tão distinta das muitas que vivi, mesmo depois de casada e mãe de família. Em que baú ficaram as fantasias coloridas completas ou improvisadas com bastante arte? Onde se esconderam os homens-homens vestidos de mulher, com trajes emprestados pelas irmãs ou pela mãe, tamanco de português nos pés? Em que parte da cidade vou encontrar os tambores, pandeiros e tamborins mal batidos dos foliões sem nenhum jeito para o samba, mas com muito orgulho e devoção? Em que lugar recôndito ficou minha gente que se reunia no Clube do Samba, de João Nogueira, lá na Avenida Rio Branco, ao primeiro apito para cair na farra? E as serpentinas e os confetes inevitavelmente sujos de água da chuva, formando um lixo que dava gosto de ver? E a lança-perfume rodo metálico ou de vidro mesmo que eu adorava usar em criança como perfume francês de belas damas e cheirar bem de leve, pois ir fundo meus pais não deixavam porque a gente desmaiava e ia para o hospital? E as marchinhas debochadas com delicadeza, decoradas com meses de antecedência, para não darmos bobeira na hora? E o samba dos blocos mais selecionados porque mais família, igualmente aprendidos com a antecedência de hinos de procissão da igreja católica: Queremos Deus, homens ingratos... Ave, Ave Ave-Maria... e tantos outros que entoávamos pelas ruas de Niterói nos dias santos, e mesmo depois, no Rio, sem nenhum pudor de mostrar nosso credo a quantos nos viam passar? Sem perceber o preconceito, entoávamos convictos, sorridentes: Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é..., fazíamos crítica aos governos: Maria Candelária é alta funcionária/... começa ao meio-dia, coitada da Maria, trabalha, trabalha, trabalha de fazer dóóóóó... Ou, até mesmo, deixávamos fluir o romantismo meloso: Todos eles estão errados, a lua é dos namorados, à época da posse da lua pelo homem.
Mudou o Carnaval ou mudei eu? O negócio é que, como tudo mais do mundo moderno, as transformações são rápidas e profundas. Antes, era o Nosso Carnaval bem brasileiro; hoje é o de toda a gente que não resiste a uma propaganda bem feita. De dentro do país, de outros estados, ou de fora. Sobretudo, depois da Era Lula que colocou o Brasil nas alturas. Com alguma razão, reconheço.
Ainda não cheguei ao ponto de cantar como em cântico fúnebre: Agora é cinza/ tudo acabado e nada mais. Sou otimista, sempre.
Maria Lindgren
Folias modernas
Vésperas de Carnaval. Passo pelas ruas de meu bairro na manhã do sábado dos primeiros blocos, uma semana antes da data estabelecida para o Carnaval. Vejo transeuntes “fantasiados”: dois chifrinhos de diabo, duas orelhinhas de Mickey Mouse na cabeça, uma fita dourada passada pela testa, lata indefectível de algum líquido na mão, um exército de vendedores de água mineral – produto na última moda de uns anos para cá - ou talvez de cerveja camuflada depois dos choques de ordem do prefeito, não sei. Só sei que homens e mulheres suam muito até chegar aos pontos de distribuição, paga e bem paga, é claro, e ganhar seu pão incrementado da época, enquanto os menos necessitados se divertem.
O tranzetê da praia para casa ou de casa para a praia não pára. Gente de todas as tonalidades e línguas se mesclam umas com as outras, quase se trombam.
- What is this? – pergunta o americano recém-chegado, espantado com a cor e a consistência do assaí do meu bar predileto, sorvido com delícia pela nova juventude ecológica. .
- It is very good, afirma o tradutor, em pronúncia péssima por sinal.
Meio atordoada, dirijo-me ao balconista simpático e bem vestido. Aliás, até o boteco passou a usar trajes de gala, por determinação do tal choque de ordem do prefeito – Leblon só pode ter comércio chique, viu, gente?
Peço um belo suco e converso com o moço, conhecido de outros carnavais.
- Você já comprou seus chifrinhos ou suas orelhinhas ou sua gravatinha dourada para se fantasiar daqui a pouco? Eu encomendei os meus, mas ainda não os trouxeram. Você sabe, coroa tem que caprichar, né mesmo? É mesmo. Fantasia da Zona Sul do Rio de Janeiro é isso aí.
Penso no tipo de folia de hoje, tão distinta das muitas que vivi, mesmo depois de casada e mãe de família. Em que baú ficaram as fantasias coloridas completas ou improvisadas com bastante arte? Onde se esconderam os homens-homens vestidos de mulher, com trajes emprestados pelas irmãs ou pela mãe, tamanco de português nos pés? Em que parte da cidade vou encontrar os tambores, pandeiros e tamborins mal batidos dos foliões sem nenhum jeito para o samba, mas com muito orgulho e devoção? Em que lugar recôndito ficou minha gente que se reunia no Clube do Samba, de João Nogueira, lá na Avenida Rio Branco, ao primeiro apito para cair na farra? E as serpentinas e os confetes inevitavelmente sujos de água da chuva, formando um lixo que dava gosto de ver? E a lança-perfume rodo metálico ou de vidro mesmo que eu adorava usar em criança como perfume francês de belas damas e cheirar bem de leve, pois ir fundo meus pais não deixavam porque a gente desmaiava e ia para o hospital? E as marchinhas debochadas com delicadeza, decoradas com meses de antecedência, para não darmos bobeira na hora? E o samba dos blocos mais selecionados porque mais família, igualmente aprendidos com a antecedência de hinos de procissão da igreja católica: Queremos Deus, homens ingratos... Ave, Ave Ave-Maria... e tantos outros que entoávamos pelas ruas de Niterói nos dias santos, e mesmo depois, no Rio, sem nenhum pudor de mostrar nosso credo a quantos nos viam passar? Sem perceber o preconceito, entoávamos convictos, sorridentes: Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é..., fazíamos crítica aos governos: Maria Candelária é alta funcionária/... começa ao meio-dia, coitada da Maria, trabalha, trabalha, trabalha de fazer dóóóóó... Ou, até mesmo, deixávamos fluir o romantismo meloso: Todos eles estão errados, a lua é dos namorados, à época da posse da lua pelo homem.
Mudou o Carnaval ou mudei eu? O negócio é que, como tudo mais do mundo moderno, as transformações são rápidas e profundas. Antes, era o Nosso Carnaval bem brasileiro; hoje é o de toda a gente que não resiste a uma propaganda bem feita. De dentro do país, de outros estados, ou de fora. Sobretudo, depois da Era Lula que colocou o Brasil nas alturas. Com alguma razão, reconheço.
Ainda não cheguei ao ponto de cantar como em cântico fúnebre: Agora é cinza/ tudo acabado e nada mais. Sou otimista, sempre.
Maria Lindgren
domingo, 15 de janeiro de 2012
El Nieto - premiado no concurso Caños Dorados em Córdoba, Espanha em 2011, para minha alegria.
El nieto
- ¡Qué bien estás, mujer! ¿Qué haces para tener una figura de dar envidia? Los años no pasan para ti.
Todos le hacían elogios, salvo algunos vendedores populares, que la llamaban tía – una manía de Rio de Janeiro (“carioca”) - con aires de querer decir vieja tía. Aún no le apodaban abuelita, pero algunos años más… Seguro que Dolores no aparentaba los sesenta y siete años. No era delgada ni gorda, tenía una esbeltez cultivada por la gimnasia desde los quince años, por lo menos.
Mujer dicha moderna, intentaba seguir las reglas de la moda, sin miedo de parecer ridícula. A veces, usaba la falda arriba de la rodilla, portaba la blusa apretada marcándole los senos y la cintura, una moda para las chicas jóvenes en el 2010, que las mayores no debían adoptar. Salvo cuando conservan un cuerpo perfecto, lo que es casi imposible para la mayoría de las brasileñas, adeptas de los frijoles con arroz.
Su pesadilla, la edad. Pensaba en las cosas excitantes que el cuerpo y las costumbres le prohibían, y se angustiaba. Hasta los cuarenta y pico, era posible tener fantasías de fiestas monumentales, trajes nuevos en todo momento, miles de amigos, novios y, en seguida, un marido siempre compañero de juerga.
Hijos criados, marido muerto, la amenaza de la soledad le manchaba la vida, enflaqueciéndole las ganas de experimentar todas las sensaciones. Pasito a paso, la depresión envolvía su alma, su cuerpo empezaba la marcha inexorable al encogimiento, produciéndole una curvatura de espaldas, un caminar más despacio.
Siempre había evitado mirarse al espejo, pues el temor de la verdad la asombraba. Desviaba el rostro o se daba un vistazo.
Jubilada, después de un vida entera de mucho trabajo, tenía tiempo libre para largas miradas. Seguro que no era su propio rostro lo que le exhibía el reflejo: lleno de arrugas, sobre todo, las clásicas alrededor de los ojos y de la boca; la piel flácida en el cuello; el pelo oscuro rareándose en la cabeza, las canas obstinándose en salir en la raíz… La “tercera edad”, como lo hablan los brasileños - llegara para jamás irse.
Así que el nieto ha concentrado sus esperanzas de una existencia sin atropellos, de retorno a las carcajadas y no, de emociones masacradas por el destino. No le interesaban los demás, aunque fueran personas de apelo evidente. Deseaba el calor del bebe, desde el instante en que lo había visto.
Le encantaba verlo sonreír, mientras ella le hacía muecas graciosas, le hacía bromas o se reía con él. Orgullo de ser la primera persona a recibir su sonrisa. Después, a los nueve, diez meses, los primeros pasitos: Dolores estaba allí para darle confianza, hacerlo sentirse capaz. ¡Como le gustaba el baño de la tarde! Un momento mágico de alegría y confusión, vivido por los dos.
El nieto le garantizaba una vida sin problemas porque ella los echara a la basura, excepto los días en que no estaba cerca del niño. Pero lo esperaba con la certeza de que volvería a sus brazos. La madre trabajaba fuera de casa, necesitaba una abuela libre de compromisos, para cuidar de su hijo en su ausencia. ¡Qué maravilla!
Los feriados y fines de semana eran un poco más tristes: los padres deseaban la presencia del niño y ella tenía que vivir de los preparativos para recibirlo a la semana siguiente.
Además, ¡qué lástima! era obligada a disputarlo con la abuela materna, señora en situación semejante de edad, pero con el marido vivo. A veces, sentía ganas de matarla, se lo confesaba a las amigas por teléfono – porque se acostumbrara a hablarles al teléfono, por supuesto y no aceptaba la moda del correo electrónico.
-¡Figúrate! Pasarán como tres días sin tenerlo para mí. Esa mujer es terrible: vive una vida regalada y no nos deja en paz.
Dolores vertía un chorro de palabras a respeto de su angelito, a punto de no oír lo que decían las antiguas amigas. Las nuevas no, porque no las tenía.
-Sin mi nieto, prefiero morir. Su aparición en mi vida me ha conducido por la ruta de la felicidad casi perdida. Abuela es madre con azúcar, tú sabes.
Una mujer no abdica de los placeres, sino cuando la vejez la llama a la puerta, a los setenta años o más. Entonces, hay que optar, como el poeta Robert Frost, por una de dos carreteras: la vida sin sal, sin expectativas, o la dedicación a alguien que nos torne las transformaciones menos dolorosas. Una labor diferente no es fácil para una vieja, el interés por la caridad, por los pobres no siempre es una vocación; una habilidad especial, pintar, bordar, tejer… no es para todas, por demasiado calmas para mujeres como Dolores, por ejemplo.
Peor, las señoras más viejas tienen que refrenar los deseos de la carne, expresión de los católicos antiguos. Los hombres, en general, ni siquiera las miraban con ojos de algún interés. Pasaban por ella en la calle como si fuera por un otro hombre. En nuestro mundo occidental, no se sabe de ejemplares del sexo masculino que se interesan sexualmente por mujeres de sesenta años o más: prefieren preservar la masculinidad y la vanidad con chicas más jóvenes. Y ahora hay tienen el recurso del Viagra que, según las charlas entre ellos, tiene un buen effecto.
Si no fuesen homossexuales, por supuesto.
¡Y cómo los había en su ciudad! Todos los años, sobre todo en verano, las playas se llenaban de guapos muchachos con hombres más viejos, ¡una vergüenza!
Dolores tenía que aceptar las limitaciones sociales, ocuparse con otros pensamientos. Ningún hombre, en nuestro mundo occidental, se interesa sexualmente por mujeres de sesenta años o más: prefieren preservar la masculinidad y la vanidad con chicas más jóvenes.
Es así que tienen que llevar la vida sin rizar el rizo, sin quejas ni exigencias, para no alejar a los demás. Y a esta hora los nietos surgen como regalo de Dios. Vienen en la época cierta, llenando los abuelos de nueva niñez, a los jubilados de quehaceres placenteros. Orgullosos, van por las calles empujando los cochecitos de bebe, sustituyendo a las mamás, sobre todo durante el día, porque a la noche, ellas vuelven a buscar a los hijos.
Quiero seguir cada progreso del nieto, las tentativas de sentarse, de caminar, de hablar, dividiéndolo con los padres, a veces, mimándolo en demasía, ¡por qué no!”, pensaba Dolores con entusiasmo.
Su único miedo, el momento en que los padres no confiasen más en sus fuerzas para encargarse de los trabajos. Sí, porque la vejez no se detiene. Un movimiento brusco de la cabeza o de las rodillas y todo se complica. Si llega la hora de caídas o enfermedades serias, mucho peor. Ella conocía mujeres que no se movían de la casa, ni siquiera para visitar a la familia. Rezaba día y noche para que su santo preferido le concediese la gracia del acceso al nieto para los años que le faltaban vivir.
La mañana de aquel día funesto llegó con sol fuerte de verano, que no le invadió su lecho vacio de mujer sin ninguna compañía, ni la invitó a irse a la playa. Abrió los ojos lenta y progresivamente.
Miró al techo de su habitación por instantes. No comprendía porqué razón no deseaba empezar la vida cotidiana. Alguna cosa no estaba en su lugar. ¿Sería el calor? ¿La lámpara que dejara encendida toda la noche? ¿La ventana de madera cerrada sofocándole el aire? ¿La brisa fresca que se olvidara de su ciudad de calor sin cesar? ¿Las nubes amenazadoras de lluvia y tronadas desde las primeras horas de la mañana? ¿El marido que no pasara la noche a su lado? ¿La hija que no quería vivir en una ciudad grande tan difícil? ¿El avance de la criminalidad por todas partes? ¿El amigo enfermo que no se curaba?
Intentó oír los ruidos comunes de la casa: los pasitos de la empleada, el ron-ron-ron de la heladera vieja, el trino de los dos pajaritos de siempre en su ventana, la voz disfrazada de los vecinos…
Se quedó sin moverse. Y, para su desesperación, comprendió todo: era la ausencia del nieto que jamás había tenido. Entonces, lloró.
- ¡Qué bien estás, mujer! ¿Qué haces para tener una figura de dar envidia? Los años no pasan para ti.
Todos le hacían elogios, salvo algunos vendedores populares, que la llamaban tía – una manía de Rio de Janeiro (“carioca”) - con aires de querer decir vieja tía. Aún no le apodaban abuelita, pero algunos años más… Seguro que Dolores no aparentaba los sesenta y siete años. No era delgada ni gorda, tenía una esbeltez cultivada por la gimnasia desde los quince años, por lo menos.
Mujer dicha moderna, intentaba seguir las reglas de la moda, sin miedo de parecer ridícula. A veces, usaba la falda arriba de la rodilla, portaba la blusa apretada marcándole los senos y la cintura, una moda para las chicas jóvenes en el 2010, que las mayores no debían adoptar. Salvo cuando conservan un cuerpo perfecto, lo que es casi imposible para la mayoría de las brasileñas, adeptas de los frijoles con arroz.
Su pesadilla, la edad. Pensaba en las cosas excitantes que el cuerpo y las costumbres le prohibían, y se angustiaba. Hasta los cuarenta y pico, era posible tener fantasías de fiestas monumentales, trajes nuevos en todo momento, miles de amigos, novios y, en seguida, un marido siempre compañero de juerga.
Hijos criados, marido muerto, la amenaza de la soledad le manchaba la vida, enflaqueciéndole las ganas de experimentar todas las sensaciones. Pasito a paso, la depresión envolvía su alma, su cuerpo empezaba la marcha inexorable al encogimiento, produciéndole una curvatura de espaldas, un caminar más despacio.
Siempre había evitado mirarse al espejo, pues el temor de la verdad la asombraba. Desviaba el rostro o se daba un vistazo.
Jubilada, después de un vida entera de mucho trabajo, tenía tiempo libre para largas miradas. Seguro que no era su propio rostro lo que le exhibía el reflejo: lleno de arrugas, sobre todo, las clásicas alrededor de los ojos y de la boca; la piel flácida en el cuello; el pelo oscuro rareándose en la cabeza, las canas obstinándose en salir en la raíz… La “tercera edad”, como lo hablan los brasileños - llegara para jamás irse.
Así que el nieto ha concentrado sus esperanzas de una existencia sin atropellos, de retorno a las carcajadas y no, de emociones masacradas por el destino. No le interesaban los demás, aunque fueran personas de apelo evidente. Deseaba el calor del bebe, desde el instante en que lo había visto.
Le encantaba verlo sonreír, mientras ella le hacía muecas graciosas, le hacía bromas o se reía con él. Orgullo de ser la primera persona a recibir su sonrisa. Después, a los nueve, diez meses, los primeros pasitos: Dolores estaba allí para darle confianza, hacerlo sentirse capaz. ¡Como le gustaba el baño de la tarde! Un momento mágico de alegría y confusión, vivido por los dos.
El nieto le garantizaba una vida sin problemas porque ella los echara a la basura, excepto los días en que no estaba cerca del niño. Pero lo esperaba con la certeza de que volvería a sus brazos. La madre trabajaba fuera de casa, necesitaba una abuela libre de compromisos, para cuidar de su hijo en su ausencia. ¡Qué maravilla!
Los feriados y fines de semana eran un poco más tristes: los padres deseaban la presencia del niño y ella tenía que vivir de los preparativos para recibirlo a la semana siguiente.
Además, ¡qué lástima! era obligada a disputarlo con la abuela materna, señora en situación semejante de edad, pero con el marido vivo. A veces, sentía ganas de matarla, se lo confesaba a las amigas por teléfono – porque se acostumbrara a hablarles al teléfono, por supuesto y no aceptaba la moda del correo electrónico.
-¡Figúrate! Pasarán como tres días sin tenerlo para mí. Esa mujer es terrible: vive una vida regalada y no nos deja en paz.
Dolores vertía un chorro de palabras a respeto de su angelito, a punto de no oír lo que decían las antiguas amigas. Las nuevas no, porque no las tenía.
-Sin mi nieto, prefiero morir. Su aparición en mi vida me ha conducido por la ruta de la felicidad casi perdida. Abuela es madre con azúcar, tú sabes.
Una mujer no abdica de los placeres, sino cuando la vejez la llama a la puerta, a los setenta años o más. Entonces, hay que optar, como el poeta Robert Frost, por una de dos carreteras: la vida sin sal, sin expectativas, o la dedicación a alguien que nos torne las transformaciones menos dolorosas. Una labor diferente no es fácil para una vieja, el interés por la caridad, por los pobres no siempre es una vocación; una habilidad especial, pintar, bordar, tejer… no es para todas, por demasiado calmas para mujeres como Dolores, por ejemplo.
Peor, las señoras más viejas tienen que refrenar los deseos de la carne, expresión de los católicos antiguos. Los hombres, en general, ni siquiera las miraban con ojos de algún interés. Pasaban por ella en la calle como si fuera por un otro hombre. En nuestro mundo occidental, no se sabe de ejemplares del sexo masculino que se interesan sexualmente por mujeres de sesenta años o más: prefieren preservar la masculinidad y la vanidad con chicas más jóvenes. Y ahora hay tienen el recurso del Viagra que, según las charlas entre ellos, tiene un buen effecto.
Si no fuesen homossexuales, por supuesto.
¡Y cómo los había en su ciudad! Todos los años, sobre todo en verano, las playas se llenaban de guapos muchachos con hombres más viejos, ¡una vergüenza!
Dolores tenía que aceptar las limitaciones sociales, ocuparse con otros pensamientos. Ningún hombre, en nuestro mundo occidental, se interesa sexualmente por mujeres de sesenta años o más: prefieren preservar la masculinidad y la vanidad con chicas más jóvenes.
Es así que tienen que llevar la vida sin rizar el rizo, sin quejas ni exigencias, para no alejar a los demás. Y a esta hora los nietos surgen como regalo de Dios. Vienen en la época cierta, llenando los abuelos de nueva niñez, a los jubilados de quehaceres placenteros. Orgullosos, van por las calles empujando los cochecitos de bebe, sustituyendo a las mamás, sobre todo durante el día, porque a la noche, ellas vuelven a buscar a los hijos.
Quiero seguir cada progreso del nieto, las tentativas de sentarse, de caminar, de hablar, dividiéndolo con los padres, a veces, mimándolo en demasía, ¡por qué no!”, pensaba Dolores con entusiasmo.
Su único miedo, el momento en que los padres no confiasen más en sus fuerzas para encargarse de los trabajos. Sí, porque la vejez no se detiene. Un movimiento brusco de la cabeza o de las rodillas y todo se complica. Si llega la hora de caídas o enfermedades serias, mucho peor. Ella conocía mujeres que no se movían de la casa, ni siquiera para visitar a la familia. Rezaba día y noche para que su santo preferido le concediese la gracia del acceso al nieto para los años que le faltaban vivir.
La mañana de aquel día funesto llegó con sol fuerte de verano, que no le invadió su lecho vacio de mujer sin ninguna compañía, ni la invitó a irse a la playa. Abrió los ojos lenta y progresivamente.
Miró al techo de su habitación por instantes. No comprendía porqué razón no deseaba empezar la vida cotidiana. Alguna cosa no estaba en su lugar. ¿Sería el calor? ¿La lámpara que dejara encendida toda la noche? ¿La ventana de madera cerrada sofocándole el aire? ¿La brisa fresca que se olvidara de su ciudad de calor sin cesar? ¿Las nubes amenazadoras de lluvia y tronadas desde las primeras horas de la mañana? ¿El marido que no pasara la noche a su lado? ¿La hija que no quería vivir en una ciudad grande tan difícil? ¿El avance de la criminalidad por todas partes? ¿El amigo enfermo que no se curaba?
Intentó oír los ruidos comunes de la casa: los pasitos de la empleada, el ron-ron-ron de la heladera vieja, el trino de los dos pajaritos de siempre en su ventana, la voz disfrazada de los vecinos…
Se quedó sin moverse. Y, para su desesperación, comprendió todo: era la ausencia del nieto que jamás había tenido. Entonces, lloró.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Divino presente
às vésperas do Natal, escrevo:
Divino presente
Naquele dia enfumaçado e quente de uma primavera que não pintava verão de jeito nenhum, só me restava torcer por dias mais bonitos de céu imaculado e bons ventos. Não as rajadas que chegavam à tarde, traiçoeiras, fortíssimas, de quebrar vetustas árvores de minha cidade e amedrontar minha plantinha, tão delicada que se fecha à toa, Não, os pingões de chuva a bater ploc-ploc, na grade cilíndrica de metal de minha varandinha. Não os raios que realmente têm partido pessoas ao meio, nos arredores da cidade, como aviso prévio de que um dia nos partirão a nós, urbanos pouco interessados nas grande causas do Planeta.
De fato, sonhei. Recostada qual Maya Desnuda em meu sofá vermelhão-sangue, vieram à minha cabeça os quadros de Natais passados, bem passados. Estávamos na semana que antecede a grande data. Grande? Para mim, que sou católica sem questionar o que me incomoda na religião. E para alguns outros que vão à missa perto de nossas casas para evitar a preguiça.
Pensei no baú vermelho, decorado de preto, pintado por mim mesma, repleto de brinquedos dos meus filhos pequenos, doados aos pobres, na certeza de serem substituídos por outros, de tias, pais, mães e avós.
“ Que fiz eu do baú, Santo Deus? Sumiu por descaso, vontade de me ver livre da lembrança da infância de meus filhotes, que se acabara de chofre, me deixara com xarope de fel na língua para sempre.”
Sem cronologia, foi a vez dos presentes de ouro de meu pai ainda rico, obrigação imposta a sí mesmo, à época mais bonita e alegre da igreja católica. Hoje, contento-me com as imitações anti-ladrão. Mas, no fundo, protesto.
Mil lembranças e o cansaço me pesaram as pálpebras, em sono fora de hora. Deus sabe o que faz: se tivesse insistido no devaneio, viriam os cheiro da comida de minha mãe, a voracidade de meu primo imigrante ao comer, o gosto do vinho do Algarve, contrário à terra nortista de meu pai, presente mal bolado por um amigo...
Acordei duas horas depois, com meu marido recém-chegado do trabalho. Às mãos, discreto, um embrulho pequeno e caprichado. Abro o pacote com cuidado, sinto o odor de meu perfume predileto, sorrio ao homem gentil e, pronto, estou feliz no Natal, de novo.
Maria Lindgren
Divino presente
Naquele dia enfumaçado e quente de uma primavera que não pintava verão de jeito nenhum, só me restava torcer por dias mais bonitos de céu imaculado e bons ventos. Não as rajadas que chegavam à tarde, traiçoeiras, fortíssimas, de quebrar vetustas árvores de minha cidade e amedrontar minha plantinha, tão delicada que se fecha à toa, Não, os pingões de chuva a bater ploc-ploc, na grade cilíndrica de metal de minha varandinha. Não os raios que realmente têm partido pessoas ao meio, nos arredores da cidade, como aviso prévio de que um dia nos partirão a nós, urbanos pouco interessados nas grande causas do Planeta.
De fato, sonhei. Recostada qual Maya Desnuda em meu sofá vermelhão-sangue, vieram à minha cabeça os quadros de Natais passados, bem passados. Estávamos na semana que antecede a grande data. Grande? Para mim, que sou católica sem questionar o que me incomoda na religião. E para alguns outros que vão à missa perto de nossas casas para evitar a preguiça.
Pensei no baú vermelho, decorado de preto, pintado por mim mesma, repleto de brinquedos dos meus filhos pequenos, doados aos pobres, na certeza de serem substituídos por outros, de tias, pais, mães e avós.
“ Que fiz eu do baú, Santo Deus? Sumiu por descaso, vontade de me ver livre da lembrança da infância de meus filhotes, que se acabara de chofre, me deixara com xarope de fel na língua para sempre.”
Sem cronologia, foi a vez dos presentes de ouro de meu pai ainda rico, obrigação imposta a sí mesmo, à época mais bonita e alegre da igreja católica. Hoje, contento-me com as imitações anti-ladrão. Mas, no fundo, protesto.
Mil lembranças e o cansaço me pesaram as pálpebras, em sono fora de hora. Deus sabe o que faz: se tivesse insistido no devaneio, viriam os cheiro da comida de minha mãe, a voracidade de meu primo imigrante ao comer, o gosto do vinho do Algarve, contrário à terra nortista de meu pai, presente mal bolado por um amigo...
Acordei duas horas depois, com meu marido recém-chegado do trabalho. Às mãos, discreto, um embrulho pequeno e caprichado. Abro o pacote com cuidado, sinto o odor de meu perfume predileto, sorrio ao homem gentil e, pronto, estou feliz no Natal, de novo.
Maria Lindgren
domingo, 6 de novembro de 2011
Foto Pedro pequeno

Espero ter acertado a foto agora. Eis meu filho Pedro Angelo em sua melhor fase. Feliz, vivia cercado de amigos do mesmo prédio de Niterói. Sorria tanto quanto a cidade apelidada de Sorriso enquanto lá vivemos.
Hoje, não conserva o rostosorridente que este é próprio da infância. Sobretudo, o reponder a estímulo: não tem significado outro que o contato com gente agradável,mesmo desconhecida. Dá risadas escandalosas como as minhas. Tem verve.
Mais de quarenta anos voaram. Sofremos e nos alegramos juntos. A vida vai me ensinando a ter o possível e a perseguir o quase inatingível.
Dia 5 de outubro tem que continuar a ter celebração: de adulto ou de velho,. Se Deus quiser!
Lágrima contida, torço por Pedro Angelo e, claro, por sua irmã, objetos preciosos de minha caixinha de música.
Maria Lindgren
sábado, 5 de novembro de 2011
Finados de ontem e de hoje
Finados de antanho e de hoje ( dia de baixo astral pra mim que gosto de ser alegre)
Finados de minha infância era mamãe toda de preto, com véu de renda para colocar n
a cabeça, fosse na igreja, fosse no cemitério.
Papai exigia roupa sóbria, até para as crianças. Nada de vestidinho muito fresco, com ou sem calor. Em casa não se tocava música nem alta nem baixa, nem popular, nem mesmo clássica. A novela do rádio ficava para o dia seguinte.
Ninguém ousava perguntar por que: Dia dos Mortos e pronto. Não se discutia. O almoço frugal contrastava com o do cotidiano de casa de português. Convinha ao dia tristonho. Nem uma taça de vinho, ainda que pequena fosse. Água pura e olhe lá.
- Dia dos Mortos é uma grande tristeza -, dizia papai. Só eu já perdi meus pais e um irmão mais novo que eu. Não posso nem quero me alegrar. Que Deus os guarde!
Minha mãe, bem menos religiosa, também se calava. Nem cantarolava suas melodias prediletas. Olhos meio úmidos, ia aos afazeres de antes da missa em silêncio consternado.
- Meninas, andem rápido porque o cemitério fica bem longe, lá do outro lado da cidade. E tem gente assim -. E fazia o gesto de abundância com os dedos.
Tudo pronto às oito horas, no máximo, rumo à igreja pedir a Deus que perdoasse os pecados dos mortos e dos vivos, coisa difícil de entender. Para mim, morto não tinha mais pecado. Mas cadê coragem de perguntar sobre matéria religiosa a meu pai, bispo-leigo de Niterói, como o chamavam os da igreja do bairro?
No cemitério, constrição absoluta, interrompida apenas para arrumar as flores brancas na lápide preta. Choro baixo; nada de escândalos. Bate-papo engolido, algazarra nem se fala.
Depois de uns dez anos de repetição do ritual, o povo cristão de minha cidade começou a invasão dos cemitérios no dia sagrado. Flores de cera substituiram as naturais, porque de maior duração. Escassas flores de verdade, com cara de meio-velhas, espalhavam-se pelo chão. Quem não tinha levado nada, as surrupiava dos outros túmulos, sem nenhum prurido.
Exceto, claro, os que guardavam a sete chaves os mausoléus dos ricaços de Niterói, banqueiros e empresários que não precisavam ir à reza no cemitério: pagavam um zelador, uns dois moleques e pronto. No máximo, iam à missa na paróquia perto de casa, deixavam os nomes de todos os mortos em cestas de vime ou caixas de papelão, logo entupidas de recados.
Nossa família mudava muito pouco de hábitos. Talvez comesse melhor e se vestisse de luto aliviado preto e branco, em tempos posteriores, não sei mais. Somente depois de nossa adolescência envergonhada de tanta comemoração de gente morta que nem conhecíamos, diminuiram-se as exigências até praticamente à extinção. Até mesmo para minha mãe. As moçoilas ouviam música sem escândalo, assistiam às novelas do rádio em tom baixo, vestiam-se de roupa leve por causa do quase-verão. Embora calça comprida tivesse demorado a ser aceita por meu pai, por ser vestuário “típico de homem”.
Namoro, casamento, formatura de irmão, maior independência da família... substituiram o fanatismo falso de quase todos. Ufa!
A sociedade brasileira começou a se declarar católica de boca somente, e o Dia dos Mortos foi mudando, mudando...tornando-se mais um feriado no calendário repleto de folgas, de nosso país apegado a uma boa-vida.
Sei que ainda há os que respeitam o dia, sobretudo na missa solene. São poucos. Aqui no Rio, parece que as pessoas que não têm muito programa vão ao cemitério, lugar de movimento, de agitação.mais do que de prece. Betem papo, escondem-se do sol, sofrem pouco, muito pouco mesmo, para nenhuma falta dos mortos, tenho certeza.
Eu mesma, confesso, deixei de ir ao cemitério com regularidade. Sinto-me mal ao ver o túmulos de minha avó, de meus pais, de meus amigos e imagino que viver na memória para sempre é o que realmenteinteressa. Faço da missa o local de meus sentimentos mais sinceros e fico melhor assim.
Já no meu bairro do Rio de Janeiro, agigantado pela invasão da propaganda da Globo nas novelas, os bares e restaurantres pululam de gente às gargalhadas, como se dissessem Morreu, morreu, ante ele do que eu. Houve até mesmo desfile de pessoas fantasiadas de mortos ensanguentados, com nas festas do México. Não me conformo.
Talvez chegue a hora em que lembrar os mortos será sentimento privado, não obrigatório, sem feriado instituído por governos para dizer que o Brasil é um país católico. Esquecidos do montão de evangélicos, de judeus, de pretos e brancos da macumba, talvez de muçulmanos que ousam proclamar a religião de Maomé.
E os que realmente amaram seus finados, irão homenageá-los cada qual a seu modo. Derramarão umas lágrimas de saudade “ palavra doce que nasce do coração/ A saudade é um sentimento que não tem definição?
Maria Lindgren
Finados de minha infância era mamãe toda de preto, com véu de renda para colocar n
a cabeça, fosse na igreja, fosse no cemitério.
Papai exigia roupa sóbria, até para as crianças. Nada de vestidinho muito fresco, com ou sem calor. Em casa não se tocava música nem alta nem baixa, nem popular, nem mesmo clássica. A novela do rádio ficava para o dia seguinte.
Ninguém ousava perguntar por que: Dia dos Mortos e pronto. Não se discutia. O almoço frugal contrastava com o do cotidiano de casa de português. Convinha ao dia tristonho. Nem uma taça de vinho, ainda que pequena fosse. Água pura e olhe lá.
- Dia dos Mortos é uma grande tristeza -, dizia papai. Só eu já perdi meus pais e um irmão mais novo que eu. Não posso nem quero me alegrar. Que Deus os guarde!
Minha mãe, bem menos religiosa, também se calava. Nem cantarolava suas melodias prediletas. Olhos meio úmidos, ia aos afazeres de antes da missa em silêncio consternado.
- Meninas, andem rápido porque o cemitério fica bem longe, lá do outro lado da cidade. E tem gente assim -. E fazia o gesto de abundância com os dedos.
Tudo pronto às oito horas, no máximo, rumo à igreja pedir a Deus que perdoasse os pecados dos mortos e dos vivos, coisa difícil de entender. Para mim, morto não tinha mais pecado. Mas cadê coragem de perguntar sobre matéria religiosa a meu pai, bispo-leigo de Niterói, como o chamavam os da igreja do bairro?
No cemitério, constrição absoluta, interrompida apenas para arrumar as flores brancas na lápide preta. Choro baixo; nada de escândalos. Bate-papo engolido, algazarra nem se fala.
Depois de uns dez anos de repetição do ritual, o povo cristão de minha cidade começou a invasão dos cemitérios no dia sagrado. Flores de cera substituiram as naturais, porque de maior duração. Escassas flores de verdade, com cara de meio-velhas, espalhavam-se pelo chão. Quem não tinha levado nada, as surrupiava dos outros túmulos, sem nenhum prurido.
Exceto, claro, os que guardavam a sete chaves os mausoléus dos ricaços de Niterói, banqueiros e empresários que não precisavam ir à reza no cemitério: pagavam um zelador, uns dois moleques e pronto. No máximo, iam à missa na paróquia perto de casa, deixavam os nomes de todos os mortos em cestas de vime ou caixas de papelão, logo entupidas de recados.
Nossa família mudava muito pouco de hábitos. Talvez comesse melhor e se vestisse de luto aliviado preto e branco, em tempos posteriores, não sei mais. Somente depois de nossa adolescência envergonhada de tanta comemoração de gente morta que nem conhecíamos, diminuiram-se as exigências até praticamente à extinção. Até mesmo para minha mãe. As moçoilas ouviam música sem escândalo, assistiam às novelas do rádio em tom baixo, vestiam-se de roupa leve por causa do quase-verão. Embora calça comprida tivesse demorado a ser aceita por meu pai, por ser vestuário “típico de homem”.
Namoro, casamento, formatura de irmão, maior independência da família... substituiram o fanatismo falso de quase todos. Ufa!
A sociedade brasileira começou a se declarar católica de boca somente, e o Dia dos Mortos foi mudando, mudando...tornando-se mais um feriado no calendário repleto de folgas, de nosso país apegado a uma boa-vida.
Sei que ainda há os que respeitam o dia, sobretudo na missa solene. São poucos. Aqui no Rio, parece que as pessoas que não têm muito programa vão ao cemitério, lugar de movimento, de agitação.mais do que de prece. Betem papo, escondem-se do sol, sofrem pouco, muito pouco mesmo, para nenhuma falta dos mortos, tenho certeza.
Eu mesma, confesso, deixei de ir ao cemitério com regularidade. Sinto-me mal ao ver o túmulos de minha avó, de meus pais, de meus amigos e imagino que viver na memória para sempre é o que realmenteinteressa. Faço da missa o local de meus sentimentos mais sinceros e fico melhor assim.
Já no meu bairro do Rio de Janeiro, agigantado pela invasão da propaganda da Globo nas novelas, os bares e restaurantres pululam de gente às gargalhadas, como se dissessem Morreu, morreu, ante ele do que eu. Houve até mesmo desfile de pessoas fantasiadas de mortos ensanguentados, com nas festas do México. Não me conformo.
Talvez chegue a hora em que lembrar os mortos será sentimento privado, não obrigatório, sem feriado instituído por governos para dizer que o Brasil é um país católico. Esquecidos do montão de evangélicos, de judeus, de pretos e brancos da macumba, talvez de muçulmanos que ousam proclamar a religião de Maomé.
E os que realmente amaram seus finados, irão homenageá-los cada qual a seu modo. Derramarão umas lágrimas de saudade “ palavra doce que nasce do coração/ A saudade é um sentimento que não tem definição?
Maria Lindgren
domingo, 18 de setembro de 2011
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Sol de outono
Meus leitores queridos
Fiquei com saudades do meu blog. Volto a escrever nele.
Vou de poesia e prosa. Poesia de oura pessoa, pois não sou poetisa e prosa minha toda prosa e fagueira.
" O que falo foi vivido
e o que vivi, não retraio..."
(Carlos Nejar, Canções n. 63)
Sol de outono
Amanheço e anoiteço com a mesma dor, todos os dias. Indefinida, parece que veio para ficar. É uma dor que qualificaria como insuportável, porque não explicada. No telefone, o doutor me recomenda um Paracetamol de quatro em quatro horas e observação. Três dias de sentir dor e ver se passa. Um horror! E se leva uma semana? E um mês?
Ah! Meu Deus! Como é difícil observar a própria dor. Primeiro, sigo os caminhos ditados pela configuração de meu corpo: começo pelo ponto mais alto: a cabeça. A dor nas têmporas, por acaso minha companheira de muitos e muito séculos – tempo de minha vida na percepção de hoje – não aparece. O órgão responsável pelo resto todo está intacto e indolor, qual bola de futebol na prateleira, antes dos chutes. Nem os ossinhos do rosto, nem o maxilar de idosa com mania de mastigar me incomodam. Nem mesmo os lábios desprotegidos pela falta de batom ou manteiga de cacau, seu lá. Ouvidos ouvem, olhos veem, nariz cheira, queixo se assenta na mão sem desvio. O pescoço, revelador de tensões, sai ileso da inspeção, tanto na parte das rugas e papeiras, como na parte de trás. Tronco: tem que ser o tronco o responsável-mor do que sinto. Percorro os ombros pesados de pouca carga física, mas de muito problema, vou direto ao coração. Nada diverso do dia a dia do batecum compassado. Nem o sopro outrora acusado pelos auscultadores sensíveis. Parto para as costelas: frágeis, mas inteiras, até bonitinhas em seu paralelismo encurvado, que é como as vejo nas radiografias. Detenho-me nos órgãos de comer e descomer: ultimamente, funcionam à perfeição, talvez pela marmita de remédios que engulo diariamente ou pelos pozinhos cor de poeira de deserto que a nutricionista me faz engulir, em lugar do feijão com arroz bendito. O local do xixi e das sensações sexuais....: tudo comme il faut.
Agora, faltam os membros. Os inferiores me atrapalham, sobretudo quando chego às extremidades, aos pés de pele fina e aos dedinhos, que me impedem de usar sapato fechado de salto alto e bico fino e me obrigam a ridículos saltinhos da última moda de jeune-filles en fleur.
Retorno ao andar de cima, diante do espelho e constato os ombros levemente inclinados para a direita, por conta de escoliose caduca. E uma vez ao espelho, sigo a olhar os braços e as mãos, sem grandes discrepâncias ou desilusões, um tanto gastos pelo tempo e ponto. Pulo para os joelhos e paro por instantes. Talvez lá encontre motivos para a dor, como de hábito. Hoje não chiam nem fazem troc-troc os miseráveis, que atazanamn as senhoras de setenta em diante. Estão santos e sanos, nenéns adormecidos. As pernas, ou melhor, as coxas, encontro-as musculosas, de muito exercício físico, mesmo assim, forradas da celulite a que me conformei. Nada de agudo, de diferente. Na pele, um ou outro sinal pretinho encabulado, sem importância, desses que jamais viram câncer de pele, umas poucas manchas brancas, provocadas pelas longas exposições ao sol que, uma vez instaladas, grudam para nunca mais sair, nem com os inúmeros cremes descobertos pelos cosmetólogos em várias gerações.
Viro de costas rápido até porque a visão não é inteira. Meio de lado, noto barriga e nádegas protuberantes: desafiam a elegância-tábua dos dias de hoje. Não gemem, entretanto. Costas ainda queimadas do sol de verão se recusam a me denunciar maus tratos. Vou desistir. Deixo a inspeção para a próxima ida ao médico generalista, uma das diversões das senhoras aposentadas de minha vizinhança, motivo para se colocar roupa mais caprichada e sair ao mundo exterior.
Decido ir à piscina azul de cada dia. Um friozinho de outono me faz crescer uns pontinhos de arrepio na pele dos braços, apesar do roupão preto e atoalhado. Continuo a passo de soldado, chego ao pleno ar livre, fonte de inspiração em todos os sentidos da palavra. Nem percebo a meia-luz do dia. Deito-me na espreguiçadeira, protegida por sundown 30 não sei para quê, ajeito a aba do boné de forma a não manchar a pele do rosto, imaculado pelo último tratamento facial.
Sinto-me pronta. Olho detidamente para a nesga de céu, doado pelos engenheiros de meu pédio. Flagro um solzinho friorento em luta vã para furar a gigantesca nuvem cinza chumbo advinda da Gávea, sempre da Gávea, repleta ainda de vegetação. Não consigo me aquecer. Pingos de chuva iniciam seu itinerário de molhar minha toalha, meu corpo, meus cabelos, o chão. E enrugar a piscina.
Tenho que voltar para dentro de minha dor.
Fiquei com saudades do meu blog. Volto a escrever nele.
Vou de poesia e prosa. Poesia de oura pessoa, pois não sou poetisa e prosa minha toda prosa e fagueira.
" O que falo foi vivido
e o que vivi, não retraio..."
(Carlos Nejar, Canções n. 63)
Sol de outono
Amanheço e anoiteço com a mesma dor, todos os dias. Indefinida, parece que veio para ficar. É uma dor que qualificaria como insuportável, porque não explicada. No telefone, o doutor me recomenda um Paracetamol de quatro em quatro horas e observação. Três dias de sentir dor e ver se passa. Um horror! E se leva uma semana? E um mês?
Ah! Meu Deus! Como é difícil observar a própria dor. Primeiro, sigo os caminhos ditados pela configuração de meu corpo: começo pelo ponto mais alto: a cabeça. A dor nas têmporas, por acaso minha companheira de muitos e muito séculos – tempo de minha vida na percepção de hoje – não aparece. O órgão responsável pelo resto todo está intacto e indolor, qual bola de futebol na prateleira, antes dos chutes. Nem os ossinhos do rosto, nem o maxilar de idosa com mania de mastigar me incomodam. Nem mesmo os lábios desprotegidos pela falta de batom ou manteiga de cacau, seu lá. Ouvidos ouvem, olhos veem, nariz cheira, queixo se assenta na mão sem desvio. O pescoço, revelador de tensões, sai ileso da inspeção, tanto na parte das rugas e papeiras, como na parte de trás. Tronco: tem que ser o tronco o responsável-mor do que sinto. Percorro os ombros pesados de pouca carga física, mas de muito problema, vou direto ao coração. Nada diverso do dia a dia do batecum compassado. Nem o sopro outrora acusado pelos auscultadores sensíveis. Parto para as costelas: frágeis, mas inteiras, até bonitinhas em seu paralelismo encurvado, que é como as vejo nas radiografias. Detenho-me nos órgãos de comer e descomer: ultimamente, funcionam à perfeição, talvez pela marmita de remédios que engulo diariamente ou pelos pozinhos cor de poeira de deserto que a nutricionista me faz engulir, em lugar do feijão com arroz bendito. O local do xixi e das sensações sexuais....: tudo comme il faut.
Agora, faltam os membros. Os inferiores me atrapalham, sobretudo quando chego às extremidades, aos pés de pele fina e aos dedinhos, que me impedem de usar sapato fechado de salto alto e bico fino e me obrigam a ridículos saltinhos da última moda de jeune-filles en fleur.
Retorno ao andar de cima, diante do espelho e constato os ombros levemente inclinados para a direita, por conta de escoliose caduca. E uma vez ao espelho, sigo a olhar os braços e as mãos, sem grandes discrepâncias ou desilusões, um tanto gastos pelo tempo e ponto. Pulo para os joelhos e paro por instantes. Talvez lá encontre motivos para a dor, como de hábito. Hoje não chiam nem fazem troc-troc os miseráveis, que atazanamn as senhoras de setenta em diante. Estão santos e sanos, nenéns adormecidos. As pernas, ou melhor, as coxas, encontro-as musculosas, de muito exercício físico, mesmo assim, forradas da celulite a que me conformei. Nada de agudo, de diferente. Na pele, um ou outro sinal pretinho encabulado, sem importância, desses que jamais viram câncer de pele, umas poucas manchas brancas, provocadas pelas longas exposições ao sol que, uma vez instaladas, grudam para nunca mais sair, nem com os inúmeros cremes descobertos pelos cosmetólogos em várias gerações.
Viro de costas rápido até porque a visão não é inteira. Meio de lado, noto barriga e nádegas protuberantes: desafiam a elegância-tábua dos dias de hoje. Não gemem, entretanto. Costas ainda queimadas do sol de verão se recusam a me denunciar maus tratos. Vou desistir. Deixo a inspeção para a próxima ida ao médico generalista, uma das diversões das senhoras aposentadas de minha vizinhança, motivo para se colocar roupa mais caprichada e sair ao mundo exterior.
Decido ir à piscina azul de cada dia. Um friozinho de outono me faz crescer uns pontinhos de arrepio na pele dos braços, apesar do roupão preto e atoalhado. Continuo a passo de soldado, chego ao pleno ar livre, fonte de inspiração em todos os sentidos da palavra. Nem percebo a meia-luz do dia. Deito-me na espreguiçadeira, protegida por sundown 30 não sei para quê, ajeito a aba do boné de forma a não manchar a pele do rosto, imaculado pelo último tratamento facial.
Sinto-me pronta. Olho detidamente para a nesga de céu, doado pelos engenheiros de meu pédio. Flagro um solzinho friorento em luta vã para furar a gigantesca nuvem cinza chumbo advinda da Gávea, sempre da Gávea, repleta ainda de vegetação. Não consigo me aquecer. Pingos de chuva iniciam seu itinerário de molhar minha toalha, meu corpo, meus cabelos, o chão. E enrugar a piscina.
Tenho que voltar para dentro de minha dor.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Una pesadilla bien pesada
Una pesadilla bien pesada
¡Cuantas veces he sentido un malestar físico o moral y en la cama, todo se calma, aunque no tenga apelado para los tranquilizantes! ¡Cuantas otras soy sorprendida con pensamientos y sueños terribles sin que les encuentre explicación! Entonces ¿por qué las pesadillas? Francamente, no lo sé. No hay, una relación estrecha entre las pesadillas y las aflicciones de la vida. Por lo menos, en mí caso, pues tengo poca cultura psicoanalítica. Mi lectura de Freud y de otros tantos gran señores de la medicina psiquiátrica no es profonda a punto de saber de los preceptos de la interpretación de los sueños. Y cuando llevo el relato de uno de ellos a mi sessión de psicoterapia, a veces ocurre que dicho sueño no me dice nada, mientras la doctora lo interpreta con miles de razones. Para ella, seguro que es claro el significado que yo ni siquiera imagino.
La noche de ayer, por ejemplo, sin justificativa, fue llenada por una sola pesadilla, una história fantástica que me ha poblado incluso todo el día seguinte. No sería un cuento de horror porque yo no sentía nada: estaba indiferente, tomada de una tranquilidad estraña – lo que casi siempre me pasa en las pesadillas -, para mi sorpresa.
Confieso ser una histerica que grita a grito pelado por una lagartija casera, no importa que me digan cuán preciosa es para comer los mosquitos, esos pequeños insectos que me dejan cabreada. Y delante lo extraordinario de los sueños más difíciles, nada: ninguna emoción.
Me acosté a la medianoche, como siempre, sin asistir a las peliculas más violentas, de hacer los pelos de punta, mi conducta preferida para no no tener insomnia. No he visto ningún vampiro sexy que a los adolescentes tanto les gusta, no he asistido al masacre de los animales, scena común en la television de programas ecológicos, ni la sangre brotaba de las heridas de animales y hombres. Deberia tener un sueño de ángel, pués.
A pesar de mis precauciones, me vi inundada por los chuzos de punta de lluvía causada por uno de esos fenómenos de nombres absurdamente delicados, El Niño, La Niña... de lo que intentaban escapar un montón de elefantes oscuros cubiertos de lama.
En la casa, estaban mi hermano, un jóven de diecieocho, veintanos – mi hermano verdadero tiene más de sesenta -, una señora de edad avanzada con una panza increíble, que los muchos años garantizaban no ser de embarazo y yo, con una barriga casi igual, con la diferencia de que estaba embarazada de verdad.
Los elefantes corrían como locos, pero empezaron a intentar entrar por las puertas, ventanas y paredes, sin que nosotros sentísemos miedo. Al contrario, mi hermano los acariciaba y repetía:
- ¡Pobres animales! Tienen que pagar por las acciones increíbles de los hombres en cuentra la naturaleza. Tengo que ayudarlos.
-
Lo más extraño es que los elefantes de mi sueño no barrían, no gemían, no hacián nada de mal, como se supone que hagan en la hora en que sienten miedo. Investían en cuentra las paredes, como se fuesen de papel, por su fuerza. Y nosotros lo aceptábamos a esto también sin miedo. Sobre todo, mi hermano que, de un salto, se montó en uno de ellos, para salir de la casa. Nosotras las mujeres no reaccionamos tampoco nos espantamos: era natural.
Por la mañana, la primera pregunta que hice a mi empleada fué:
¿Sabes si nuestro popular juego de los animales( jogo do bicho) tiene la categoria elefante?
Ella no supe responderme.
Me senté para el café y me de vuelta con la cabeza hasta la mesita redonda de la sala que la tengo llena de elefantitos de mi colección. Descubri todo: mi colección era modesta.
- Tengo que abrir las puertas para recibir más elefantes!
Maria Lindgren
¡Cuantas veces he sentido un malestar físico o moral y en la cama, todo se calma, aunque no tenga apelado para los tranquilizantes! ¡Cuantas otras soy sorprendida con pensamientos y sueños terribles sin que les encuentre explicación! Entonces ¿por qué las pesadillas? Francamente, no lo sé. No hay, una relación estrecha entre las pesadillas y las aflicciones de la vida. Por lo menos, en mí caso, pues tengo poca cultura psicoanalítica. Mi lectura de Freud y de otros tantos gran señores de la medicina psiquiátrica no es profonda a punto de saber de los preceptos de la interpretación de los sueños. Y cuando llevo el relato de uno de ellos a mi sessión de psicoterapia, a veces ocurre que dicho sueño no me dice nada, mientras la doctora lo interpreta con miles de razones. Para ella, seguro que es claro el significado que yo ni siquiera imagino.
La noche de ayer, por ejemplo, sin justificativa, fue llenada por una sola pesadilla, una história fantástica que me ha poblado incluso todo el día seguinte. No sería un cuento de horror porque yo no sentía nada: estaba indiferente, tomada de una tranquilidad estraña – lo que casi siempre me pasa en las pesadillas -, para mi sorpresa.
Confieso ser una histerica que grita a grito pelado por una lagartija casera, no importa que me digan cuán preciosa es para comer los mosquitos, esos pequeños insectos que me dejan cabreada. Y delante lo extraordinario de los sueños más difíciles, nada: ninguna emoción.
Me acosté a la medianoche, como siempre, sin asistir a las peliculas más violentas, de hacer los pelos de punta, mi conducta preferida para no no tener insomnia. No he visto ningún vampiro sexy que a los adolescentes tanto les gusta, no he asistido al masacre de los animales, scena común en la television de programas ecológicos, ni la sangre brotaba de las heridas de animales y hombres. Deberia tener un sueño de ángel, pués.
A pesar de mis precauciones, me vi inundada por los chuzos de punta de lluvía causada por uno de esos fenómenos de nombres absurdamente delicados, El Niño, La Niña... de lo que intentaban escapar un montón de elefantes oscuros cubiertos de lama.
En la casa, estaban mi hermano, un jóven de diecieocho, veintanos – mi hermano verdadero tiene más de sesenta -, una señora de edad avanzada con una panza increíble, que los muchos años garantizaban no ser de embarazo y yo, con una barriga casi igual, con la diferencia de que estaba embarazada de verdad.
Los elefantes corrían como locos, pero empezaron a intentar entrar por las puertas, ventanas y paredes, sin que nosotros sentísemos miedo. Al contrario, mi hermano los acariciaba y repetía:
- ¡Pobres animales! Tienen que pagar por las acciones increíbles de los hombres en cuentra la naturaleza. Tengo que ayudarlos.
-
Lo más extraño es que los elefantes de mi sueño no barrían, no gemían, no hacián nada de mal, como se supone que hagan en la hora en que sienten miedo. Investían en cuentra las paredes, como se fuesen de papel, por su fuerza. Y nosotros lo aceptábamos a esto también sin miedo. Sobre todo, mi hermano que, de un salto, se montó en uno de ellos, para salir de la casa. Nosotras las mujeres no reaccionamos tampoco nos espantamos: era natural.
Por la mañana, la primera pregunta que hice a mi empleada fué:
¿Sabes si nuestro popular juego de los animales( jogo do bicho) tiene la categoria elefante?
Ella no supe responderme.
Me senté para el café y me de vuelta con la cabeza hasta la mesita redonda de la sala que la tengo llena de elefantitos de mi colección. Descubri todo: mi colección era modesta.
- Tengo que abrir las puertas para recibir más elefantes!
Maria Lindgren
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Símbolo perfeito
Não aguento mais tantos votos no fim do ano de 2010. Preferi, pois, fazer uma crônica que, de fato se passou comigo, e lhes enviar minha mensagem de Ano Novo, leitores amigos
Espero que gostem do Símbolo perfeito.
Símbolo perfeito
Penúltimo dia de 2010. Apressada, vou ao banco que mais odeio, raspar os ralos reais que me sobram, graças à contenção da volúpia de compras. “Aquele” banco repleto de velhotes e velhotas aposentados, e de alguns funcionários públicos mal ajambrados, à espera de suas minguadas granas.
Os aposentados compassivos aceitam – e até curtem – a demora. Descansam da rua doida de gente, trânsito e calor, às vezes, batem papo com um vizinho mais simpático, raridade no Rio de Janeiro.
- Graças a Deus o calor melhorou, né mesmo? Tou até sentindo frio.
- Este banco é um pouco lento. A gente leva horas aqui. Até que hoje está melhorzinho: poucas pessoas ainda tem o que retirar.
- Aquele caixa careca é o mais simpático. O resto é tudo mal-humorado.
O temperamento difícil de caixa de banco da nossa cidade, já se sabe, deve-se ao salário baixo. Aqui, apesar da greve longa, parece que os patrões nem se tocaram.
Mal sento e ouço gritarem meu número de senha. Como sempre, tremo. Vão errar tudo. Não deu outra. Levo uma meia-hora, no mínimo, explicando meus problemas particulares, o que me faz remoer mágoas deixadas em banho-Maria nas festas de fim de ano. E bato queixo de frio no ar condicionado a toda. Mal humorada, penso que minha indumentária nunca acerta com a meteorologia, nem com o ar artificial de shopings, cinemas e bancos.
Passo de novo na porta giratória detectora de metal, que se havia zangado com meras chaves da minha bolsa., o que provocara comentários desairosos dos guardas, indicativos de minha idade:
- Calma, minha senhora!!!! Pra quê a raiva? Cuidado!!!!Olha o coração!!!!
Xingo minha maquiagem que não camufla as rugas, ponho os belos óculos dados a mim mesma de presente em rasgo de mão-aberta.
Vou direto ao salão me embelezar os cabelos, com um dedo ou quase de brancos a reiterar o horror e a canseira da velhice nos tempos modernos de nada de “ respeite ao menos meus cabelos brancos”, como na canção antiga. O salão de segunda em shoping de primeira regurgita: gente por todo lado, sobretudo nas manicures. Querem entrar o ano novo sem vislumbre de desmazelo.
Subo a escada em caracol sem leveza, estatelo-me numa poltrona feiosa, olho-me ao espelhão sob a luz fria azulada e detestada: estou feia demais. Que pescoço mais franzido!!!!
A cabeleireira doce e meiga, de um salto, apanha o último número da revista de fotos, para me agradar. Coitada, não sabe que acabo de ler O Túnel, de Ernesto Sábato, e odeio revistas de gente que se veste de cafonália em ilusão de elegância francesa dos grandes salões.
Penso em minha filha que vaticina um fututo cada vez mais inculto para um país que se pretende a 5ª economia do mercado mundial. Moda também é cultura. Livro, ninguém lê.
De qualquer modo, ativo o desfile de magras, gordotas e até gordas, todas com dinheiro de empresas e indústria nacionais e multinacionais. Nenhuma professora, nenhum médico de classe média, nem mesmo um jornalista mais desconhecido. Entre as raras celebridades internacionais, destaco Penélope Cruz, grávida de oito meses, feliz da vida por ter casado com o gatão Javier Barden.
Entre Giseles, Danielas, Giovanas e um ou outro homem da famoso dou um ufa de alivío e fecho a revista, bem na hora de fazer as unhas. Escolho o esmalte mais tchan, o de cor vinho, para combinar com o vinho da ceia de fim de ano. Até a manicure se espanta:
- Humm, humm!!!!!
Cabeça lavada por mãos mágicas, reconcilio-me com a vida. Respiro bem fundo. Até que não estou tão mal assim.
Saio do salão sorriso aberto para todas as presentes, desejo-lhes bem alto um Feliz Ano Novo, e só então me lembro que ninguém me ouve por causa do barulhão dos secadores de cabelo.
Reflito dois minutos sobre a estupidez humana da globalização capitalista, ao observar minhas companheiras de sexo em frenéticas compras ainda, caras como só meu Rio sabe fazer, segundo me contam os que viajam ao exterior e voltaram carregadíssimos de tudo.
Ando devagar e vejo ao longe um boneco dentro de um carrinho bem grande, sobre um dos bancos de descanso do corredor. Aproximo-me de leve, e a visão me ilumina: uma bebêzinha de dois meses, de carne e osso, de brinquinho de pérola, mínima. Rio para a menininha e ela me sorri, acreditem, apesar da cara antipática da mãe.
O Ano Novo começa aí.
Maria Lindgren
Espero que gostem do Símbolo perfeito.
Símbolo perfeito
Penúltimo dia de 2010. Apressada, vou ao banco que mais odeio, raspar os ralos reais que me sobram, graças à contenção da volúpia de compras. “Aquele” banco repleto de velhotes e velhotas aposentados, e de alguns funcionários públicos mal ajambrados, à espera de suas minguadas granas.
Os aposentados compassivos aceitam – e até curtem – a demora. Descansam da rua doida de gente, trânsito e calor, às vezes, batem papo com um vizinho mais simpático, raridade no Rio de Janeiro.
- Graças a Deus o calor melhorou, né mesmo? Tou até sentindo frio.
- Este banco é um pouco lento. A gente leva horas aqui. Até que hoje está melhorzinho: poucas pessoas ainda tem o que retirar.
- Aquele caixa careca é o mais simpático. O resto é tudo mal-humorado.
O temperamento difícil de caixa de banco da nossa cidade, já se sabe, deve-se ao salário baixo. Aqui, apesar da greve longa, parece que os patrões nem se tocaram.
Mal sento e ouço gritarem meu número de senha. Como sempre, tremo. Vão errar tudo. Não deu outra. Levo uma meia-hora, no mínimo, explicando meus problemas particulares, o que me faz remoer mágoas deixadas em banho-Maria nas festas de fim de ano. E bato queixo de frio no ar condicionado a toda. Mal humorada, penso que minha indumentária nunca acerta com a meteorologia, nem com o ar artificial de shopings, cinemas e bancos.
Passo de novo na porta giratória detectora de metal, que se havia zangado com meras chaves da minha bolsa., o que provocara comentários desairosos dos guardas, indicativos de minha idade:
- Calma, minha senhora!!!! Pra quê a raiva? Cuidado!!!!Olha o coração!!!!
Xingo minha maquiagem que não camufla as rugas, ponho os belos óculos dados a mim mesma de presente em rasgo de mão-aberta.
Vou direto ao salão me embelezar os cabelos, com um dedo ou quase de brancos a reiterar o horror e a canseira da velhice nos tempos modernos de nada de “ respeite ao menos meus cabelos brancos”, como na canção antiga. O salão de segunda em shoping de primeira regurgita: gente por todo lado, sobretudo nas manicures. Querem entrar o ano novo sem vislumbre de desmazelo.
Subo a escada em caracol sem leveza, estatelo-me numa poltrona feiosa, olho-me ao espelhão sob a luz fria azulada e detestada: estou feia demais. Que pescoço mais franzido!!!!
A cabeleireira doce e meiga, de um salto, apanha o último número da revista de fotos, para me agradar. Coitada, não sabe que acabo de ler O Túnel, de Ernesto Sábato, e odeio revistas de gente que se veste de cafonália em ilusão de elegância francesa dos grandes salões.
Penso em minha filha que vaticina um fututo cada vez mais inculto para um país que se pretende a 5ª economia do mercado mundial. Moda também é cultura. Livro, ninguém lê.
De qualquer modo, ativo o desfile de magras, gordotas e até gordas, todas com dinheiro de empresas e indústria nacionais e multinacionais. Nenhuma professora, nenhum médico de classe média, nem mesmo um jornalista mais desconhecido. Entre as raras celebridades internacionais, destaco Penélope Cruz, grávida de oito meses, feliz da vida por ter casado com o gatão Javier Barden.
Entre Giseles, Danielas, Giovanas e um ou outro homem da famoso dou um ufa de alivío e fecho a revista, bem na hora de fazer as unhas. Escolho o esmalte mais tchan, o de cor vinho, para combinar com o vinho da ceia de fim de ano. Até a manicure se espanta:
- Humm, humm!!!!!
Cabeça lavada por mãos mágicas, reconcilio-me com a vida. Respiro bem fundo. Até que não estou tão mal assim.
Saio do salão sorriso aberto para todas as presentes, desejo-lhes bem alto um Feliz Ano Novo, e só então me lembro que ninguém me ouve por causa do barulhão dos secadores de cabelo.
Reflito dois minutos sobre a estupidez humana da globalização capitalista, ao observar minhas companheiras de sexo em frenéticas compras ainda, caras como só meu Rio sabe fazer, segundo me contam os que viajam ao exterior e voltaram carregadíssimos de tudo.
Ando devagar e vejo ao longe um boneco dentro de um carrinho bem grande, sobre um dos bancos de descanso do corredor. Aproximo-me de leve, e a visão me ilumina: uma bebêzinha de dois meses, de carne e osso, de brinquinho de pérola, mínima. Rio para a menininha e ela me sorri, acreditem, apesar da cara antipática da mãe.
O Ano Novo começa aí.
Maria Lindgren
domingo, 28 de novembro de 2010
Socorro - O Rio não continua tão lindo assim
Socorro!
De repente, saio à rua para um de meus tratamentos da coluna e vejo um bairro meio vazio. A princípio, enclausurada em minha própria obsessão da doença, estranho. Passo a esperar um taxi, como sempre e, para minha surpresa, está fácil demais de se entrar em um. “Deve ser a proximidade do final do mês, afinal, estamos no dia 25de novembro”, penso, alienada.
Entro e o motorista, de rádio ligado bem alto, me traz as piores notícias do Rio de Janeiro, cidade dita e repetida Maravilhosa, ninguém entende por que. Trinta e três mortos e não sei quantos feridos na guerra retomada(?) dos bandidos contra a polícia e, agora, contra nós, que mal bebemos um copo de chope. O clima da Rádio Tupi é de arrepiar os poucos pelos que tenho no braço. Uma gritaria nas entrevistas, uma barulheira de sirenes, um constatar do não-poder-fazer-nada, um horror.
Eu que já ando meio zonza por conta de uma labirintite, só fiz piorar. Saltei do táxi quase caindo nas pedras portuguesas meio desfalcadas das calçadas, ainda com a voz do motorista a me aconselhar:
- Eu, se fosse a senhora, não saía de casa esses dias. Inda mais com tonteira.
À saída do consultório do fisioterapeuta, deparo-me com um elevador vazio, o que é raro no prédio repleto de consultórios. Certamente, fizeram como eu, que adiei uma consulta de manhã cedo na Barra da Tijuca. Só que, no meu caso, por motivo particular.
Acho que não foi surpresa para ninguém que pensa o mundo de hoje a reação dos famigerados bandidos, depois da implantação de sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora. Os miseráveis tinham que provar que podem mais que a polícia e o estão fazendo com enorme alarido.
Vi cenas na tevê de desanimar: montes de ônibus incendiados, balas misturadas da polícia e dos bandidos, famílias em correria desenfreda para suas casas (mães e filhos pequenos, em geral). Nem as vans, preferidas da classe popular carioca, também ninguém entende porque, escaparam do absurdo bélico: estão sendo igualmente incendiadas. O comércio de pouca venda fecha as portas e reza para o problemão não chegar até às vésperas do Natal. Clima de Afeganistão ou Iraque.
Na volta do tratamento, ouço um idiota dizer no rádio:
Pior que tudo é o triste papel do Brasil no exterior. Todos os jornais do mundo noticiaram a tragédia do Rio.
Revoltada, quero sair bem rápido, mas ainda tenho tempo de dizer ao taxista:
Pior por causa do mundo, nada. O mundo é uma vergonha de tanta guerra. Pior mesmo é para nós, da nossa terra, que sofremos esta barbárie há muito tempo.
Lembrei-me de minha filha, que já teve revólver e faca apontados para ela em tr|~es ocasiões. E olhe que ela continua a sair sozinha, que fazer?
Que-fazer são as palavras que não saem das bocas dos cariocas, em lugar dos festejoa natalinos que se aproximam.
Que o menino-Deus possa ser comemorado em paz, amén!
De repente, saio à rua para um de meus tratamentos da coluna e vejo um bairro meio vazio. A princípio, enclausurada em minha própria obsessão da doença, estranho. Passo a esperar um taxi, como sempre e, para minha surpresa, está fácil demais de se entrar em um. “Deve ser a proximidade do final do mês, afinal, estamos no dia 25de novembro”, penso, alienada.
Entro e o motorista, de rádio ligado bem alto, me traz as piores notícias do Rio de Janeiro, cidade dita e repetida Maravilhosa, ninguém entende por que. Trinta e três mortos e não sei quantos feridos na guerra retomada(?) dos bandidos contra a polícia e, agora, contra nós, que mal bebemos um copo de chope. O clima da Rádio Tupi é de arrepiar os poucos pelos que tenho no braço. Uma gritaria nas entrevistas, uma barulheira de sirenes, um constatar do não-poder-fazer-nada, um horror.
Eu que já ando meio zonza por conta de uma labirintite, só fiz piorar. Saltei do táxi quase caindo nas pedras portuguesas meio desfalcadas das calçadas, ainda com a voz do motorista a me aconselhar:
- Eu, se fosse a senhora, não saía de casa esses dias. Inda mais com tonteira.
À saída do consultório do fisioterapeuta, deparo-me com um elevador vazio, o que é raro no prédio repleto de consultórios. Certamente, fizeram como eu, que adiei uma consulta de manhã cedo na Barra da Tijuca. Só que, no meu caso, por motivo particular.
Acho que não foi surpresa para ninguém que pensa o mundo de hoje a reação dos famigerados bandidos, depois da implantação de sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora. Os miseráveis tinham que provar que podem mais que a polícia e o estão fazendo com enorme alarido.
Vi cenas na tevê de desanimar: montes de ônibus incendiados, balas misturadas da polícia e dos bandidos, famílias em correria desenfreda para suas casas (mães e filhos pequenos, em geral). Nem as vans, preferidas da classe popular carioca, também ninguém entende porque, escaparam do absurdo bélico: estão sendo igualmente incendiadas. O comércio de pouca venda fecha as portas e reza para o problemão não chegar até às vésperas do Natal. Clima de Afeganistão ou Iraque.
Na volta do tratamento, ouço um idiota dizer no rádio:
Pior que tudo é o triste papel do Brasil no exterior. Todos os jornais do mundo noticiaram a tragédia do Rio.
Revoltada, quero sair bem rápido, mas ainda tenho tempo de dizer ao taxista:
Pior por causa do mundo, nada. O mundo é uma vergonha de tanta guerra. Pior mesmo é para nós, da nossa terra, que sofremos esta barbárie há muito tempo.
Lembrei-me de minha filha, que já teve revólver e faca apontados para ela em tr|~es ocasiões. E olhe que ela continua a sair sozinha, que fazer?
Que-fazer são as palavras que não saem das bocas dos cariocas, em lugar dos festejoa natalinos que se aproximam.
Que o menino-Deus possa ser comemorado em paz, amén!
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Hablando de un texto de Mario Vargas Llosa
Parece que estou com mania de escrver em espahol. Acho que é o sentimento dea América Latina que me incita.
Hablando de un texto de Mario Vargas Llosa
Hablando de un texto de Mario Vargas Llosa
Después de un partido de fútbol lleno de emociones, en que la Argentina de Maradona luchaba con el Mexico de un entrenador desconocido, y lo venció, abro el periódico El País, de domingo 27 de 2010. Me ví a vueltas con una descripción de la casa en la cual vivió y murió el escritor ruso Dostoievski, en San Petersburg, Rusia, junto con comentários sobre sus habitos, como, por ejemplo, el de escribir a la noche, en trance..
A un texto periodistico de Mario Vargas Llosa no se puede resistir. El bueno escritor nos seduce para sus textos. Además, si escribe sobre Dostoievsky, hay que enfrentar la extensión y las palabras desconocidas, aunque sienta el cansancio de hinchar por Argentina. Sobretodo, por el gran Maradona – un hombre admirable por su vida llena de atropellos a los cuales ha enfrentado con mucha garra.
El nombre Fiodor Dostoievski, después del ruido hipnótico de las vuvuzeras de África del Sur, en la Copa del Mundo, es un regalo. Para mí, es el mejor escritor que he leído en mi vida. Me fue presentado por mi primer marido, un muchacho de vasta erudición, admirador de la literatura y de la philosophia, de los novelistas rusos, más que todo. Él leía tantas páginas de un chorro que, en una semana, tragaba, por lo menos, tres libros de Dostoievski, Tolstoy o Tchekov... sin que la espesura y el peso le desanimase.
La época era muy rica de lecturas, conciertos de música, ballet y todo lo que significa la cultura erudita. Un deslumbramiento para una jóven salida de la escuela para el matrimonio.
Me acuerdo de ir al Teatro Municipal de Rio en la vieja barca Niterói-Rio, por lo menos, dos veces al mes, a la noche, deliciándome con todo lo que me ofrecían. No me gusta tanto la Opera, pero asistía a una u otra, cuando los demás de la familia no querían hacer uso de los billetes. El abuelo de mi marido había sido un critico musical famoso en Rio de Janeiro y tenía el derecho a la cortesia de dos butacas especiales, en una de las mejores seciones del teatro: el balcón noble hilera A, frente al scenario. Los billetes eran gratis, por supuesto, pero yo usaba mis mejores trajes de gala, como si fuera una persona rica.
En las casas, no había muchas cosas que ver en una televisión pobre de opciones. Así que leíamos durante el tiempo libre. Mi marido me prestaba los libros que más le gustaban, tan pronto terminaba el último capítulo.
Crimen y Castigo, considerado por muchos criticos la obra maxima del autor, me impresiona hasta hoy. La thesis defendida y magistralmente escrita que defiende el derecho de matar a un ser humano por el simple gusto del poder, las descripciones del asesinato de la vieja por el jóven lleno de ambición, me hicieron perder un montón de noches de sueno. Las emociones de aquel tiempo no se hacían con gran alarido: eran silenciosas y profundas, talvez más sentidas que las de nuestro mundo de escándalos.
Las lecturas especiales tenian un effecto increible sobre nosotros. Muchos de los libros cambiaban la vida de las personas, sobre todo, de los jóvenes. Quizás fuesen más potentes que el cine y el teatro otras dos grandes pasiones de mi gente que nos dejaban contentos o infelices, por supuesto, pero no tenían la misma fuerza de los libros. El Demian, de Hermann Hesse, había transformado el pensamiento de muchos jóvenes de 1946 y continuó a influenciarlos en los años sesenta del siglo pasado por sus ideas avanzadas.
Los libros traducían y aún traducen, los sentimentos que no teniamos el coraje de confesar. Por ejemplo, el erotismo, que la iglesia julgaba un pecado. No es el caso de Crimen y Castigo, pues jamás me ha pasado por la cabeza el acto de matar a un semejante, por ninguna razón.
La dramaticidad de la escena teatral también era parte de nuestras preferéncias. Tchekov con su Tio Vánia que asisti en una primera versión paulista, hablaba de una gente que parecia en extinción en Rusia, los pequeños burgueses. Hasta los días actuales hay versiones del autor que tienen publico cautivo. La descripción de la guerra en Guerra y Paz, de Tolstoi, los personajes femeninos y sus amores, en la parte de la paz de la novela, los cuentos de Tchekov y otros tantos poblaron mis ensueños de joven, me enseñaron a amar la literatura. Yo pasaba horas flotando en el aire, delante de las aventuras y desventuras vividas en las novelas por los personajes para mí tan reales como mis vecinos y amigos. .
Cuanto a mí, confieso no era un lectora tan voraz. Pero lloraba, sofría e reía con los maravillosos libros de mi vida, aunque nada se puede comparar al suspense, al miedo que sentí con esa obra prima de Fiodor Dostoievski, Crime y Castigo. Por este motivo, leo con curiosidad u admiración todo lo que me cae en las manos sobre ese autor. Es así que he leido con placer La casa de Dostoievsky, de Vargas Llosa.
“Y aún hoy, los barrios y casas están impregnados de historias y personajes, mezcla de drama y espiritualidad” La frase inicial tan interesante me ha dado ganas de irme a San Petesburgo, para sentir de cerca la vida de Dostoievski, como yo pude hacer con Kafka, en un callejón del famoso Castillo de Praga.
Tengo certeza de que si me ofrecesen un viaje a Rusia, de preferencia en verano o primavera, porque el frío de allá puede matar, lo aceptaría de buen grado, no solamente para conocer Moscú, la ciudad en que Dostoievski nació, como para visitar “el barrio de los mercados” en San Petesburgo y descubrir más cosas de mi escritor favorito. Aunque no sea más la época del comunismo de mi pasión, temido por mucha gente en todo el mundo, excepto por mí.
Entonces, no me interesarían los coches modernos: caminaría en los carruajes de los siglos pasados, ni que fuera en un ensueño.
Maria José Lindgren Alves
Hablando de un texto de Mario Vargas Llosa
Hablando de un texto de Mario Vargas Llosa
Después de un partido de fútbol lleno de emociones, en que la Argentina de Maradona luchaba con el Mexico de un entrenador desconocido, y lo venció, abro el periódico El País, de domingo 27 de 2010. Me ví a vueltas con una descripción de la casa en la cual vivió y murió el escritor ruso Dostoievski, en San Petersburg, Rusia, junto con comentários sobre sus habitos, como, por ejemplo, el de escribir a la noche, en trance..
A un texto periodistico de Mario Vargas Llosa no se puede resistir. El bueno escritor nos seduce para sus textos. Además, si escribe sobre Dostoievsky, hay que enfrentar la extensión y las palabras desconocidas, aunque sienta el cansancio de hinchar por Argentina. Sobretodo, por el gran Maradona – un hombre admirable por su vida llena de atropellos a los cuales ha enfrentado con mucha garra.
El nombre Fiodor Dostoievski, después del ruido hipnótico de las vuvuzeras de África del Sur, en la Copa del Mundo, es un regalo. Para mí, es el mejor escritor que he leído en mi vida. Me fue presentado por mi primer marido, un muchacho de vasta erudición, admirador de la literatura y de la philosophia, de los novelistas rusos, más que todo. Él leía tantas páginas de un chorro que, en una semana, tragaba, por lo menos, tres libros de Dostoievski, Tolstoy o Tchekov... sin que la espesura y el peso le desanimase.
La época era muy rica de lecturas, conciertos de música, ballet y todo lo que significa la cultura erudita. Un deslumbramiento para una jóven salida de la escuela para el matrimonio.
Me acuerdo de ir al Teatro Municipal de Rio en la vieja barca Niterói-Rio, por lo menos, dos veces al mes, a la noche, deliciándome con todo lo que me ofrecían. No me gusta tanto la Opera, pero asistía a una u otra, cuando los demás de la familia no querían hacer uso de los billetes. El abuelo de mi marido había sido un critico musical famoso en Rio de Janeiro y tenía el derecho a la cortesia de dos butacas especiales, en una de las mejores seciones del teatro: el balcón noble hilera A, frente al scenario. Los billetes eran gratis, por supuesto, pero yo usaba mis mejores trajes de gala, como si fuera una persona rica.
En las casas, no había muchas cosas que ver en una televisión pobre de opciones. Así que leíamos durante el tiempo libre. Mi marido me prestaba los libros que más le gustaban, tan pronto terminaba el último capítulo.
Crimen y Castigo, considerado por muchos criticos la obra maxima del autor, me impresiona hasta hoy. La thesis defendida y magistralmente escrita que defiende el derecho de matar a un ser humano por el simple gusto del poder, las descripciones del asesinato de la vieja por el jóven lleno de ambición, me hicieron perder un montón de noches de sueno. Las emociones de aquel tiempo no se hacían con gran alarido: eran silenciosas y profundas, talvez más sentidas que las de nuestro mundo de escándalos.
Las lecturas especiales tenian un effecto increible sobre nosotros. Muchos de los libros cambiaban la vida de las personas, sobre todo, de los jóvenes. Quizás fuesen más potentes que el cine y el teatro otras dos grandes pasiones de mi gente que nos dejaban contentos o infelices, por supuesto, pero no tenían la misma fuerza de los libros. El Demian, de Hermann Hesse, había transformado el pensamiento de muchos jóvenes de 1946 y continuó a influenciarlos en los años sesenta del siglo pasado por sus ideas avanzadas.
Los libros traducían y aún traducen, los sentimentos que no teniamos el coraje de confesar. Por ejemplo, el erotismo, que la iglesia julgaba un pecado. No es el caso de Crimen y Castigo, pues jamás me ha pasado por la cabeza el acto de matar a un semejante, por ninguna razón.
La dramaticidad de la escena teatral también era parte de nuestras preferéncias. Tchekov con su Tio Vánia que asisti en una primera versión paulista, hablaba de una gente que parecia en extinción en Rusia, los pequeños burgueses. Hasta los días actuales hay versiones del autor que tienen publico cautivo. La descripción de la guerra en Guerra y Paz, de Tolstoi, los personajes femeninos y sus amores, en la parte de la paz de la novela, los cuentos de Tchekov y otros tantos poblaron mis ensueños de joven, me enseñaron a amar la literatura. Yo pasaba horas flotando en el aire, delante de las aventuras y desventuras vividas en las novelas por los personajes para mí tan reales como mis vecinos y amigos. .
Cuanto a mí, confieso no era un lectora tan voraz. Pero lloraba, sofría e reía con los maravillosos libros de mi vida, aunque nada se puede comparar al suspense, al miedo que sentí con esa obra prima de Fiodor Dostoievski, Crime y Castigo. Por este motivo, leo con curiosidad u admiración todo lo que me cae en las manos sobre ese autor. Es así que he leido con placer La casa de Dostoievsky, de Vargas Llosa.
“Y aún hoy, los barrios y casas están impregnados de historias y personajes, mezcla de drama y espiritualidad” La frase inicial tan interesante me ha dado ganas de irme a San Petesburgo, para sentir de cerca la vida de Dostoievski, como yo pude hacer con Kafka, en un callejón del famoso Castillo de Praga.
Tengo certeza de que si me ofrecesen un viaje a Rusia, de preferencia en verano o primavera, porque el frío de allá puede matar, lo aceptaría de buen grado, no solamente para conocer Moscú, la ciudad en que Dostoievski nació, como para visitar “el barrio de los mercados” en San Petesburgo y descubrir más cosas de mi escritor favorito. Aunque no sea más la época del comunismo de mi pasión, temido por mucha gente en todo el mundo, excepto por mí.
Entonces, no me interesarían los coches modernos: caminaría en los carruajes de los siglos pasados, ni que fuera en un ensueño.
Maria José Lindgren Alves
Mais um em espanho|: La atración por el mal
Antes tarde... volto para ver se agrado a alguém. Espero que não tenham esquecido esta senhora metida a escritora, que muito deve a várias amigas, pelo incentivo de continuar.
Estive com uma danada de uma dor de coluna, que me impediu de fazer o que hoje me é sinônimo de VIDA.
Perdoem-me a ausência e espalhem o "engenho e arte" que tenho esperanças de ter. ainda que homeopaticamente.
Maria Lindgren
La atración por el mal
Hay personas que creen en todo lo que las religiones proclaman, sin dudar un minuto. Cuando yo era una niña en preparación para mi Primera Comunión, en la iglesia católica de mi escuela de monjas, oí hablar del infierno como un local de suplicios infinitos, por la primera vez. Sin un escalofrío, como si me estuviesen contando una historia de ficción interesante, de genios del mal, dragones y guerras de mucha sangre, que no me impresionasen más, miré al padre y le dije bien alto, para sorpresa de mis compañeras:
Si es verdad que hay un infierno, debe tener muy poca gente. Los grandes pecadores, no los conozco. Estoy segura de que ninguna persona de mi familia, ninguno de mis amigos va para allá después de muerto.
Al padre le impresionaron las reflexiones tan maduras para una chica de siete años. Así que seguí mi vida sin ideas lúgubres sobre el destino de los vivos y de los muertos. Iba a la iglesia con mi familia, pero no me seducían las palabras amenazadoras sobre el poder del demonio, cosa que hasta los católicos de nuestros días desean olvidar. Buscaba siempre los mensajes de optimismo, de amor. Para mí, el pecado se reducía a pequeñas transgresiones, es decir, una u otra mentira, diabluras livianas, palabrotas que no chocasen a mis padres, nada más.
Pensar en un calderón lleno de agua en ebullición o una hoguera siempre pronta a nos martirizar no me parecía compatible con una existencia que se iniciaba llena de buenas promesas. Es así que los libros que leía, las películas que veía solo me daban placer porque llenos de declaraciones de amor, ya sea por los hombres, o por la naturaleza. Me identificaba con Sofia, de las historias delicadas de la Condesa de Segur, como me había identificado con las heroínas del tipo Blanca Nieves, La Bella Durmiente, Cenicienta, Rapunzel y otras tantas, muy diferentes de los monstruos tecnológicos de hoy.
Cuando me interesé por el cine, cercaba las películas suaves, como Siempre en mi corazón, un gran éxito entre las chicas, El mágico de Oz, otro éxito hasta los días de hoy, las animaciones del mundo encantado de Walt Disney, las historias inocentes de Frank Kapra... Y me han chocado hasta las entrañas las películas de la II Guerra Mundial, las de vampiros, las historias de detective – aunque me gustasen los libros de Agatha Christie - y, mas que todo, el cine de un gran cineasta llamado Polanski.
Ya lo conocía como un director que no tenia miedo de exhibir verdades sucias en el telón del cine. Pero el máximo de sensación de malestar me ha causado El Bebe de Rosemary – su obra prima en mi opinión. Esa película nos hace sufrir por hablar de los sentimientos de una joven madre, una tan buena madre que acepta el hijo deformado del demonio, encarnado en su marido, desde el momento en que lo oye llorar en la cuna.
Después del Bebe de Rosemary, he seguido los pasos del director porque lo admiraba a punto de olvidar las tragedias que su talento nos exhibía. Seguí las pasadas de su matrimonio con Sharon Tate, una belleza de mujer embarazada, y el final trágico de su asesinato por un fanático religioso, Charles Manson, durante una de las sesiones diabólicas de esa “religión”, a la cual el director también aceptaba.
Pasó el tiempo y el nombre de Roman Polanski surgía vez en cuando en los periódicos y en la tele. Cuando dirigió El Pianista, creo que yo fue una de las primeras admiradoras a ver la película, para no arrepentirme A ese tiempo, admiraba el arte, no importa que se volviera al mal. La bella secuencia del pianista judío tocando el piano en los escombros de una casa, bajo la admiración respetuosa del soldado germánico, amante de la música, no me salió de la cabeza. Es una comprobación de que el Arte tiene más fuerza que los prejuicios, que los bombardeos, que la propia muerte.
Jamás pensé en Polanski como un violador de mujeres. Más aun, de una niña de trece años. Había escuchado vagamente sobre su exilio en Suiza o en Francia, pero me parecía voluntario, y no porque si estuviese en tierras americanas sería jugado y condenado. Juro que no me acuerdo de detenerme en un acontecimiento tan terrible. Porque, Roman Polanski es parte de mi grupo de artistas a quien admiro por el intelecto privilegiado. Y para ellos, los artistas y intelectuales, no puede haber infierno, ni acá en la tierra, ni allá no sé exactamente en qué lugar. Son pocos seres humanos escogidos por Dios y por mí para conducirme al cielo del Arte y basta.
Sufrí con la condenación de uno de los grande nombres del cine internacional. Me siento confundida, hasta ahora, sin saber la verdad, pues, al mismo tiempo en que la niña me parece inocente y linda, como he visto en las fotos, el gran director, es un artista como pocos, desde la época en que trabajaba en Polonia.
Encuentro una explicación para la tendencia de algunos artistas por explotar el mal: son seducidos por el demonio y están en varios sectores del Arte: en el cine, Alfred Hitchcock, en la literatura, EdgarAlan Poe, Beaudelaire, en la pintura, Jerónimo Bosch, Goya y tantos otros. Y lo hacen con la mayor maestría, por supuesto.
Maria Lindgren
Estive com uma danada de uma dor de coluna, que me impediu de fazer o que hoje me é sinônimo de VIDA.
Perdoem-me a ausência e espalhem o "engenho e arte" que tenho esperanças de ter. ainda que homeopaticamente.
Maria Lindgren
La atración por el mal
Hay personas que creen en todo lo que las religiones proclaman, sin dudar un minuto. Cuando yo era una niña en preparación para mi Primera Comunión, en la iglesia católica de mi escuela de monjas, oí hablar del infierno como un local de suplicios infinitos, por la primera vez. Sin un escalofrío, como si me estuviesen contando una historia de ficción interesante, de genios del mal, dragones y guerras de mucha sangre, que no me impresionasen más, miré al padre y le dije bien alto, para sorpresa de mis compañeras:
Si es verdad que hay un infierno, debe tener muy poca gente. Los grandes pecadores, no los conozco. Estoy segura de que ninguna persona de mi familia, ninguno de mis amigos va para allá después de muerto.
Al padre le impresionaron las reflexiones tan maduras para una chica de siete años. Así que seguí mi vida sin ideas lúgubres sobre el destino de los vivos y de los muertos. Iba a la iglesia con mi familia, pero no me seducían las palabras amenazadoras sobre el poder del demonio, cosa que hasta los católicos de nuestros días desean olvidar. Buscaba siempre los mensajes de optimismo, de amor. Para mí, el pecado se reducía a pequeñas transgresiones, es decir, una u otra mentira, diabluras livianas, palabrotas que no chocasen a mis padres, nada más.
Pensar en un calderón lleno de agua en ebullición o una hoguera siempre pronta a nos martirizar no me parecía compatible con una existencia que se iniciaba llena de buenas promesas. Es así que los libros que leía, las películas que veía solo me daban placer porque llenos de declaraciones de amor, ya sea por los hombres, o por la naturaleza. Me identificaba con Sofia, de las historias delicadas de la Condesa de Segur, como me había identificado con las heroínas del tipo Blanca Nieves, La Bella Durmiente, Cenicienta, Rapunzel y otras tantas, muy diferentes de los monstruos tecnológicos de hoy.
Cuando me interesé por el cine, cercaba las películas suaves, como Siempre en mi corazón, un gran éxito entre las chicas, El mágico de Oz, otro éxito hasta los días de hoy, las animaciones del mundo encantado de Walt Disney, las historias inocentes de Frank Kapra... Y me han chocado hasta las entrañas las películas de la II Guerra Mundial, las de vampiros, las historias de detective – aunque me gustasen los libros de Agatha Christie - y, mas que todo, el cine de un gran cineasta llamado Polanski.
Ya lo conocía como un director que no tenia miedo de exhibir verdades sucias en el telón del cine. Pero el máximo de sensación de malestar me ha causado El Bebe de Rosemary – su obra prima en mi opinión. Esa película nos hace sufrir por hablar de los sentimientos de una joven madre, una tan buena madre que acepta el hijo deformado del demonio, encarnado en su marido, desde el momento en que lo oye llorar en la cuna.
Después del Bebe de Rosemary, he seguido los pasos del director porque lo admiraba a punto de olvidar las tragedias que su talento nos exhibía. Seguí las pasadas de su matrimonio con Sharon Tate, una belleza de mujer embarazada, y el final trágico de su asesinato por un fanático religioso, Charles Manson, durante una de las sesiones diabólicas de esa “religión”, a la cual el director también aceptaba.
Pasó el tiempo y el nombre de Roman Polanski surgía vez en cuando en los periódicos y en la tele. Cuando dirigió El Pianista, creo que yo fue una de las primeras admiradoras a ver la película, para no arrepentirme A ese tiempo, admiraba el arte, no importa que se volviera al mal. La bella secuencia del pianista judío tocando el piano en los escombros de una casa, bajo la admiración respetuosa del soldado germánico, amante de la música, no me salió de la cabeza. Es una comprobación de que el Arte tiene más fuerza que los prejuicios, que los bombardeos, que la propia muerte.
Jamás pensé en Polanski como un violador de mujeres. Más aun, de una niña de trece años. Había escuchado vagamente sobre su exilio en Suiza o en Francia, pero me parecía voluntario, y no porque si estuviese en tierras americanas sería jugado y condenado. Juro que no me acuerdo de detenerme en un acontecimiento tan terrible. Porque, Roman Polanski es parte de mi grupo de artistas a quien admiro por el intelecto privilegiado. Y para ellos, los artistas y intelectuales, no puede haber infierno, ni acá en la tierra, ni allá no sé exactamente en qué lugar. Son pocos seres humanos escogidos por Dios y por mí para conducirme al cielo del Arte y basta.
Sufrí con la condenación de uno de los grande nombres del cine internacional. Me siento confundida, hasta ahora, sin saber la verdad, pues, al mismo tiempo en que la niña me parece inocente y linda, como he visto en las fotos, el gran director, es un artista como pocos, desde la época en que trabajaba en Polonia.
Encuentro una explicación para la tendencia de algunos artistas por explotar el mal: son seducidos por el demonio y están en varios sectores del Arte: en el cine, Alfred Hitchcock, en la literatura, EdgarAlan Poe, Beaudelaire, en la pintura, Jerónimo Bosch, Goya y tantos otros. Y lo hacen con la mayor maestría, por supuesto.
Maria Lindgren
quarta-feira, 10 de março de 2010
De volta
De volta
Queria demais voltar à terra em que nasceu. De pele meio enrugada, cabelos pintados para disfarçar os brancos, corpo um tanto curvado, joelhos meio cansados... Ainda assim, uma bela viagem. Sonhava e sentia o cheirinho da terra, do ar não poluído de SUA aldeia, ouvia o sotaque carregado do Norte de Portugal, quase esquecido. Ah! Um poema de Florbela Espanca declamado por português autêntico!
Maria Joana tinha certeza de encontrar os festejos dos parentes, apesar dos sessenta e tantos anos longe, sem uma visita sequer, como era possível! Alguns mortos, no único cemitério, outros velhos vivos, nos diferentes povoados ao redor, poucos maduros, em Lisboa e Coimbra, como o primo nunca esquecido, de olhos verdes que lhe abriam o coração.
Será que receberia abraços carinhosos e beijos sentidos, até meio molhados, iguais aos que dera nas bochechas dos parentes, naquele longínquo passado em que deixara a família portuguesa com o marido? Quanto chão!
Na certa, um enorme nó lhe atacaria a garganta, qual hérnia de disco que não deixa respirar bem, ao rever o que restasse da casa do pai, morto há bastante tempo. Toda branca, impunha-se na paisagem da Serra do Marão, rodeada de pequenas casas a se humilharem diante da moradia central do professor único daquelas paragens.
Sim, porque o pai tinha ensinado a várias gerações, na aldeia pequenina. E respeitavam-no talvez mais do que a qualquer professor-doutor, desses que aparecem na tevê de hoje, para comentar os desastres ecológicos, a descoberta de novas formas de transplantes, as escaramuças assassinas das grandes cidades...
O homem jamais pisara em universidade, o que não lhe impedia o interesse pelos livros. Nem precisava. Sabia como conduzir os alunos às primeiras e médias letras. Não ultrapassava os cinco anos da escola primária. Conhecia suas limitações e as leis do magistério português. Todos os alunos numa mesma sala de aula, que jeito? Mas quem estudava com ele, não esquecia o prazer de ler, escrever, contar – ensinamentos básicos para o que der e vier.
A própria Maria Joana fora sua aluna e não mais estudara. Aos quinze anos, contava apenas com as luzes fracas de rapariga de aldeia: dedicava-se ao trabalho doméstico, ao lado da mãe, folheava o que lhe caísse ás mãos, em geral, velhos jornais. Namorado firme arranjado na vizinhança, livros, para quê?
Aos dezesseis anos, Brasil, bagagem pesada de sonhos e alguma roupa. Em companhia do rapazola que a desvirginara.
Um absurdo casar tão cedo, se pensarmos nos estratos sociais mais altos dos tempos modernos! Coisa trivial naquela época em que a mulher só valia alguma coisa se casasse. Não queria sofrer o risco de ser chamada M´nina Maria Joana para o resto de seus dias. Casamento dava dignidade e respeito. Passava a ser Sra. Dona.
Se tivesse que definir seus sentimentos em relação ao namorado diria que eram algo como uma coceira incipiente, que não chega a se alastrar corpo a fora ou a dentro, nem sei. Nenhum calor tão especial assim vinha-lhe das entranhas. Mas, o fato é que, meio sem graça, a relação sexual deu num filho.
Cumpridas as formalidades de praxe - licença do padre e do juizado local, por ser menor de idade, casaram-se e viajaram direto para o Brasil. Que vale é que Manuel, em seus vinte três anos, tinha ambição, queria alargar as vistas de filho de camponês, trabalhador do campo, e entrar com fôlego em nova carreira.
Foi tudo muito rápido porque a vergonha de uma barriga inchada seria demais para o pai-professor. Bastava o escândalo da irmã mais velha, que se casara com um padre. Se não se apressassem, surra no futuro noivo, de pai e tio bem machos, acostumados a dar o troco no muque. Sobretudo o tio, rude trabalhador rural, que jamais largara os vinhedos para embrenhar-se em escola e letras. Sabia, isso sim, distinguir as uvas que prestavam para o vinho maduro e o vinho doce de sua terra.
A viagem de Maria Joana e Manuel não podia agradar a ninguém: na terceira classe de um navio nada era flores. Chegaram ao Brasil daquele jeito de cansaço, depois de dez dias de muito enjôo e ansiedade. Mal conseguiram apertar a mão do amigo caído do céu.
Logo foram com ele, de barca, para outra cidade, que não o Rio de Janeiro, do outro lado de uma baía: Niterói. Ânimo revigorado pela brisa fresca, o mar parecia-lhes bem diverso do marzão sem fim da viagem. Uma hora, no máximo. Apesar de um certo medo a lhes arrepiar o corpo, até o atracar da embarcação - reflexo dos muitos dias de nenhuma visão no horizonte.
O amigo da família, Sr. Joaquim dos Santos, de mais de cinquenta anos, radicado no Brasil há bem uns trinta, lhes perguntou, com sotaque familiar:
- Antão, estão a gostar da paisagem?
- Pois sim -, responderam em uníssono.
Gostaram de fato da cidade, sem ligar para o calor do verão de trinta e muitos graus. Ainda que se instalassem no centro, perto das Barcas e do armazém do amigo Sr. Joaquim. O mar sempre aparecia, mas deixaram-no para os passeios a pé aos domingos, no caminho para a praia de Gragoatá e, anos depois, para o passeio maior à Praia de Icaraí, essa sim, uma jóia. Tão preciosa que a adotaram como lazer primeiro, depois, como moradia.
Maria Joana teve filhos gêmeos, o que a tomou por inteiro. Como se pouco fosse, uma menina e mais um menino, logo depois. Aí foi que, pela primeira vez, a moça ouviu falar de evitar filho com tabela de dias férteis, tarefa que aprendeu com grande dificuldade, graças a uma vizinha mais viva.
Porque homem da classe popular, os ministros do governo que não se enganem, até hoje, não quer saber de sacrifício sexual. Nada de camisinha de Vênus.
Tropeços normais da vida, Maria Joana ia se fazendo meio-brasileira. O marido bem posto na vida, fez-se sócio da casa, com boa aceitação entre a Colônia lusa niteroiense. Havia visitado Portugal uma única vez, por insistência do sócio.
- O´Pá. Nunca mais voltas à Terrinha? Olha que Portugal é um b´leza. Deixa a família um pouco e vá sozinho.
Maria Joana aceitou esperar sua vez. Em vão. Havia sempre uma desculpa, coisa de marido sovina, que quer juntar dinheiro para o futuro.
O tempo passava e ela com as mazelas de criança, seguidas dos deveres na escola. Freqüentaram boas escolas privadas os miúdos. De repente, sem que se percebesse, os gêmeos formaram-se em medicina e direito, a menina, em pedagogia, o menor, com vocação para músico, fez carreira na Escola de Música do Rio de Janeiro, sucesso quase garantido.
E Portugal? E sua aldeia querida? E a família lusitana?
A morte do marido por enfarte súbito a levou à aceitação serena, por causa dos filhos e das amigas, que a haviam acompanhado nos bons dias e agora a amparavam no enterro e na solidão de viúva.
Foi de uma delas a idéia de irem a Portugal, refrescar os miolos, rever o que sobrara das intempéries naturais do viver.
- Esse negócio de carta pra lá, carta pra cá, é pouco. Você está com os filhos criados, Joana. Eu posso ir com você na viagem. Estou sozinha, eu e Deus, e tenho minhas economias, desde o tempo de meu marido vivo. Vamos?
Maria Joana se preparou meses, com minúcias. Queria vestir-se bem, aparentar juventude eterna, nunca se queixar, para deixar os de lá embasbacados com o Brasil. Exaltar Niterói, com sua beleza natural, sua calma, sua completa falta de perigos urbanos.
Ao espelho, decidiu fazer uma puxada nos olhos meio caídos. Afinal, a plástica entrara em voga e ela havia sido uma moça bem faceira. Não haveria decepção dos familiares. Sobretudo, se desse com o primo quase namoradinho da mesma idade e gosto mais requintado que o dela: aquele que lhe declamava poemas dos afamados poetas portugueses, voz meio rouquenha de emoção, olhos mornos de amor.
Em homenagem ao primo, tome de regime para emagrecer uns bons cinco quilos, além da plástica. Quem sabe, não iriam a alguma festa na cidade do Porto, bem mais pra frente que a aldeia de seu pai? Ou mesmo a Coimbra e Lisboa, num feriado mais longo, quando as universidades davam descanso aos lentes - o primo estava em fins de carreira em Coimbra: ainda não tinha tempo para a aposentadoria.
.Passagens compradas, Maria Joana e a amiga lá se foram, não importa o medo de avião das estreantes. Reza e comprimidos calmantes as ajudaram a vencer o desafio de voar lá acima das nuvens, que coisa!!!
Chegaram estropiadas, mas felizes. Lindo o aeroporto, linda Lisboa. Pena que só de passagem para a aldeia. A luso-brasileira não queria demorar em city tours porque havia avisado o dia da chegada à prima Ambrosina, que herdara a casa paterna, com aquiescência da família. Afinal, era solteira. M´nina Ambrosina.
Pisaram a Régua, que espanto! Como progredira a cidade, para quem se lembrava de uma vila bem atrasada, quase sem nenhum sinal de modernidade. Almoçaram um peixe assado na brasa daqueles regados ao azeite, com vinho e tudo, num restaurante logo acima da ponte sobre o rio, pegaram novo ânimo e de táxi, vejam só, rumo à terra de Maria Joana, que português que se preza não renega a pátria.
Na entrada da aldeia, a placa com o nome escrito em azulejos azul e branco a fez tremer e marejar. Pronto, lá vinham as lágrimas a estragar o prazer. A amiga brasileira, de tanto ouvir falar das belezas da Serra do Marão, apertou-lhe as mãos, solidária.
Num aclive do monte, em domínio da região, a casa branca. Correria desenfreada para os braços da prima idosa, Ambrosina:
- Ai, Jesus que chegaram as brasileiras, chegaram as brasileiras!
Estranhou ser chamada de brasileira, mas calou-se: era o apelido dado a todos que ficavam no Brasil e regressavam à terra, de visita.
No inverno ameno português, o frio pedia aconchego e conversa fora. Não um frio de morte como o da Suécia, Dinamarca, Rússia...
Pela janela, a noite de breu e silêncio, nenhum ruído a intervir no eco das vozes femininas. Ambrosina preparou o aquecedor meio primitivo na sala e nos quartos, acendeu a lareira na cozinha e, bem agasalhadas, as lembranças afluíam como se fosse ontem: gente que Maria Joana havia deixado sem muita vontade, exceto o pai e a mãe, cuja morte lhe havia sido comunicada de supetão, por telegrama.
- E a prima Isabel?
- Casou e mudou-se pra Lisboa há muito tempo. Tornou -se uma lisboeta de truz e lá deitou raízes, quase sem contacto conosco. Lá uma vez ou outra, num Natal, um cartãozito, mais nada. Tá com dois filhos bem taludos. Se quiseres, dou-te o endereço dela.
- E o tio Alfredo, mais a tia Firmina?
- Moraram sempre noutra região, na Serra da Estrela, lembras-te? A família nos visitava a mim e à minha irmã durante anos, mas a velhice e a doença nos prende a todos ao chão próximo. Morreram faz algum tempo, bem antes de minha irmã. Eu não quis mandar dizer pra não te aborrecer com lamúrias. O Brasil fica muito longe para estares a vir a enterros. Ainda bem que só falto eu a morrer.
- E o primo, professor de Coimbra?
- Não recebeste nenhuma notícia, de lado nenhum? Morreu de enfarte há meses. Nem chegou a se aposentar. Faltava um tempo, sei lá eu quanto.
- Tens certeza? É mesmo aquele que me declamava versos românticos, tás lembrada?
- É ele, sim senhor. O Alfredo. Morava em Coimbra. O irmão morreu faz dois anos, de derrame cerebral. Mas com ele, tu não tinhas lá muito a ver, não é mesmo?
Tonta, Maria Joana viu pela vidraça da janela a serra sem beleza, em noite de arrepios. Tentou respirar o ar puro bem diferente do seu ar brasileiro de cidade:, o frio empacou-lhe o desejo. Enxugou o canto dos olhos com a barra da blusa e disse:
- Q´rida prima. Volto amanhã sem falta pro Brasil. Adeus!!!!!!
Maria Lindgren
Queria demais voltar à terra em que nasceu. De pele meio enrugada, cabelos pintados para disfarçar os brancos, corpo um tanto curvado, joelhos meio cansados... Ainda assim, uma bela viagem. Sonhava e sentia o cheirinho da terra, do ar não poluído de SUA aldeia, ouvia o sotaque carregado do Norte de Portugal, quase esquecido. Ah! Um poema de Florbela Espanca declamado por português autêntico!
Maria Joana tinha certeza de encontrar os festejos dos parentes, apesar dos sessenta e tantos anos longe, sem uma visita sequer, como era possível! Alguns mortos, no único cemitério, outros velhos vivos, nos diferentes povoados ao redor, poucos maduros, em Lisboa e Coimbra, como o primo nunca esquecido, de olhos verdes que lhe abriam o coração.
Será que receberia abraços carinhosos e beijos sentidos, até meio molhados, iguais aos que dera nas bochechas dos parentes, naquele longínquo passado em que deixara a família portuguesa com o marido? Quanto chão!
Na certa, um enorme nó lhe atacaria a garganta, qual hérnia de disco que não deixa respirar bem, ao rever o que restasse da casa do pai, morto há bastante tempo. Toda branca, impunha-se na paisagem da Serra do Marão, rodeada de pequenas casas a se humilharem diante da moradia central do professor único daquelas paragens.
Sim, porque o pai tinha ensinado a várias gerações, na aldeia pequenina. E respeitavam-no talvez mais do que a qualquer professor-doutor, desses que aparecem na tevê de hoje, para comentar os desastres ecológicos, a descoberta de novas formas de transplantes, as escaramuças assassinas das grandes cidades...
O homem jamais pisara em universidade, o que não lhe impedia o interesse pelos livros. Nem precisava. Sabia como conduzir os alunos às primeiras e médias letras. Não ultrapassava os cinco anos da escola primária. Conhecia suas limitações e as leis do magistério português. Todos os alunos numa mesma sala de aula, que jeito? Mas quem estudava com ele, não esquecia o prazer de ler, escrever, contar – ensinamentos básicos para o que der e vier.
A própria Maria Joana fora sua aluna e não mais estudara. Aos quinze anos, contava apenas com as luzes fracas de rapariga de aldeia: dedicava-se ao trabalho doméstico, ao lado da mãe, folheava o que lhe caísse ás mãos, em geral, velhos jornais. Namorado firme arranjado na vizinhança, livros, para quê?
Aos dezesseis anos, Brasil, bagagem pesada de sonhos e alguma roupa. Em companhia do rapazola que a desvirginara.
Um absurdo casar tão cedo, se pensarmos nos estratos sociais mais altos dos tempos modernos! Coisa trivial naquela época em que a mulher só valia alguma coisa se casasse. Não queria sofrer o risco de ser chamada M´nina Maria Joana para o resto de seus dias. Casamento dava dignidade e respeito. Passava a ser Sra. Dona.
Se tivesse que definir seus sentimentos em relação ao namorado diria que eram algo como uma coceira incipiente, que não chega a se alastrar corpo a fora ou a dentro, nem sei. Nenhum calor tão especial assim vinha-lhe das entranhas. Mas, o fato é que, meio sem graça, a relação sexual deu num filho.
Cumpridas as formalidades de praxe - licença do padre e do juizado local, por ser menor de idade, casaram-se e viajaram direto para o Brasil. Que vale é que Manuel, em seus vinte três anos, tinha ambição, queria alargar as vistas de filho de camponês, trabalhador do campo, e entrar com fôlego em nova carreira.
Foi tudo muito rápido porque a vergonha de uma barriga inchada seria demais para o pai-professor. Bastava o escândalo da irmã mais velha, que se casara com um padre. Se não se apressassem, surra no futuro noivo, de pai e tio bem machos, acostumados a dar o troco no muque. Sobretudo o tio, rude trabalhador rural, que jamais largara os vinhedos para embrenhar-se em escola e letras. Sabia, isso sim, distinguir as uvas que prestavam para o vinho maduro e o vinho doce de sua terra.
A viagem de Maria Joana e Manuel não podia agradar a ninguém: na terceira classe de um navio nada era flores. Chegaram ao Brasil daquele jeito de cansaço, depois de dez dias de muito enjôo e ansiedade. Mal conseguiram apertar a mão do amigo caído do céu.
Logo foram com ele, de barca, para outra cidade, que não o Rio de Janeiro, do outro lado de uma baía: Niterói. Ânimo revigorado pela brisa fresca, o mar parecia-lhes bem diverso do marzão sem fim da viagem. Uma hora, no máximo. Apesar de um certo medo a lhes arrepiar o corpo, até o atracar da embarcação - reflexo dos muitos dias de nenhuma visão no horizonte.
O amigo da família, Sr. Joaquim dos Santos, de mais de cinquenta anos, radicado no Brasil há bem uns trinta, lhes perguntou, com sotaque familiar:
- Antão, estão a gostar da paisagem?
- Pois sim -, responderam em uníssono.
Gostaram de fato da cidade, sem ligar para o calor do verão de trinta e muitos graus. Ainda que se instalassem no centro, perto das Barcas e do armazém do amigo Sr. Joaquim. O mar sempre aparecia, mas deixaram-no para os passeios a pé aos domingos, no caminho para a praia de Gragoatá e, anos depois, para o passeio maior à Praia de Icaraí, essa sim, uma jóia. Tão preciosa que a adotaram como lazer primeiro, depois, como moradia.
Maria Joana teve filhos gêmeos, o que a tomou por inteiro. Como se pouco fosse, uma menina e mais um menino, logo depois. Aí foi que, pela primeira vez, a moça ouviu falar de evitar filho com tabela de dias férteis, tarefa que aprendeu com grande dificuldade, graças a uma vizinha mais viva.
Porque homem da classe popular, os ministros do governo que não se enganem, até hoje, não quer saber de sacrifício sexual. Nada de camisinha de Vênus.
Tropeços normais da vida, Maria Joana ia se fazendo meio-brasileira. O marido bem posto na vida, fez-se sócio da casa, com boa aceitação entre a Colônia lusa niteroiense. Havia visitado Portugal uma única vez, por insistência do sócio.
- O´Pá. Nunca mais voltas à Terrinha? Olha que Portugal é um b´leza. Deixa a família um pouco e vá sozinho.
Maria Joana aceitou esperar sua vez. Em vão. Havia sempre uma desculpa, coisa de marido sovina, que quer juntar dinheiro para o futuro.
O tempo passava e ela com as mazelas de criança, seguidas dos deveres na escola. Freqüentaram boas escolas privadas os miúdos. De repente, sem que se percebesse, os gêmeos formaram-se em medicina e direito, a menina, em pedagogia, o menor, com vocação para músico, fez carreira na Escola de Música do Rio de Janeiro, sucesso quase garantido.
E Portugal? E sua aldeia querida? E a família lusitana?
A morte do marido por enfarte súbito a levou à aceitação serena, por causa dos filhos e das amigas, que a haviam acompanhado nos bons dias e agora a amparavam no enterro e na solidão de viúva.
Foi de uma delas a idéia de irem a Portugal, refrescar os miolos, rever o que sobrara das intempéries naturais do viver.
- Esse negócio de carta pra lá, carta pra cá, é pouco. Você está com os filhos criados, Joana. Eu posso ir com você na viagem. Estou sozinha, eu e Deus, e tenho minhas economias, desde o tempo de meu marido vivo. Vamos?
Maria Joana se preparou meses, com minúcias. Queria vestir-se bem, aparentar juventude eterna, nunca se queixar, para deixar os de lá embasbacados com o Brasil. Exaltar Niterói, com sua beleza natural, sua calma, sua completa falta de perigos urbanos.
Ao espelho, decidiu fazer uma puxada nos olhos meio caídos. Afinal, a plástica entrara em voga e ela havia sido uma moça bem faceira. Não haveria decepção dos familiares. Sobretudo, se desse com o primo quase namoradinho da mesma idade e gosto mais requintado que o dela: aquele que lhe declamava poemas dos afamados poetas portugueses, voz meio rouquenha de emoção, olhos mornos de amor.
Em homenagem ao primo, tome de regime para emagrecer uns bons cinco quilos, além da plástica. Quem sabe, não iriam a alguma festa na cidade do Porto, bem mais pra frente que a aldeia de seu pai? Ou mesmo a Coimbra e Lisboa, num feriado mais longo, quando as universidades davam descanso aos lentes - o primo estava em fins de carreira em Coimbra: ainda não tinha tempo para a aposentadoria.
.Passagens compradas, Maria Joana e a amiga lá se foram, não importa o medo de avião das estreantes. Reza e comprimidos calmantes as ajudaram a vencer o desafio de voar lá acima das nuvens, que coisa!!!
Chegaram estropiadas, mas felizes. Lindo o aeroporto, linda Lisboa. Pena que só de passagem para a aldeia. A luso-brasileira não queria demorar em city tours porque havia avisado o dia da chegada à prima Ambrosina, que herdara a casa paterna, com aquiescência da família. Afinal, era solteira. M´nina Ambrosina.
Pisaram a Régua, que espanto! Como progredira a cidade, para quem se lembrava de uma vila bem atrasada, quase sem nenhum sinal de modernidade. Almoçaram um peixe assado na brasa daqueles regados ao azeite, com vinho e tudo, num restaurante logo acima da ponte sobre o rio, pegaram novo ânimo e de táxi, vejam só, rumo à terra de Maria Joana, que português que se preza não renega a pátria.
Na entrada da aldeia, a placa com o nome escrito em azulejos azul e branco a fez tremer e marejar. Pronto, lá vinham as lágrimas a estragar o prazer. A amiga brasileira, de tanto ouvir falar das belezas da Serra do Marão, apertou-lhe as mãos, solidária.
Num aclive do monte, em domínio da região, a casa branca. Correria desenfreada para os braços da prima idosa, Ambrosina:
- Ai, Jesus que chegaram as brasileiras, chegaram as brasileiras!
Estranhou ser chamada de brasileira, mas calou-se: era o apelido dado a todos que ficavam no Brasil e regressavam à terra, de visita.
No inverno ameno português, o frio pedia aconchego e conversa fora. Não um frio de morte como o da Suécia, Dinamarca, Rússia...
Pela janela, a noite de breu e silêncio, nenhum ruído a intervir no eco das vozes femininas. Ambrosina preparou o aquecedor meio primitivo na sala e nos quartos, acendeu a lareira na cozinha e, bem agasalhadas, as lembranças afluíam como se fosse ontem: gente que Maria Joana havia deixado sem muita vontade, exceto o pai e a mãe, cuja morte lhe havia sido comunicada de supetão, por telegrama.
- E a prima Isabel?
- Casou e mudou-se pra Lisboa há muito tempo. Tornou -se uma lisboeta de truz e lá deitou raízes, quase sem contacto conosco. Lá uma vez ou outra, num Natal, um cartãozito, mais nada. Tá com dois filhos bem taludos. Se quiseres, dou-te o endereço dela.
- E o tio Alfredo, mais a tia Firmina?
- Moraram sempre noutra região, na Serra da Estrela, lembras-te? A família nos visitava a mim e à minha irmã durante anos, mas a velhice e a doença nos prende a todos ao chão próximo. Morreram faz algum tempo, bem antes de minha irmã. Eu não quis mandar dizer pra não te aborrecer com lamúrias. O Brasil fica muito longe para estares a vir a enterros. Ainda bem que só falto eu a morrer.
- E o primo, professor de Coimbra?
- Não recebeste nenhuma notícia, de lado nenhum? Morreu de enfarte há meses. Nem chegou a se aposentar. Faltava um tempo, sei lá eu quanto.
- Tens certeza? É mesmo aquele que me declamava versos românticos, tás lembrada?
- É ele, sim senhor. O Alfredo. Morava em Coimbra. O irmão morreu faz dois anos, de derrame cerebral. Mas com ele, tu não tinhas lá muito a ver, não é mesmo?
Tonta, Maria Joana viu pela vidraça da janela a serra sem beleza, em noite de arrepios. Tentou respirar o ar puro bem diferente do seu ar brasileiro de cidade:, o frio empacou-lhe o desejo. Enxugou o canto dos olhos com a barra da blusa e disse:
- Q´rida prima. Volto amanhã sem falta pro Brasil. Adeus!!!!!!
Maria Lindgren
sábado, 9 de janeiro de 2010
Gaviões e passarinhos
Meus queridos amigos
Estamos em janeiro de 2010, pasmem!!!!!
Ano -Novo, novo resfriado muito forte, depois de viagem marítima bem sucedida. Ah! O calor do Rio de Janeiro! Quase perco as malas e a cabeça, claro, pois sair de uma "nave" que "va" com ar condicionado e muito vento fresco todo o tempo e cair na brasa carioca do cais do porto, com direito à mulatas rebolando e tudo, é pra colocar nacaquinhos no sótão, domo dizia minha mãe.
Como não havia macaquitos nem macacões, todos embrenhados no pouco de Mata Atlântica que ainda nos resta, apavorados pelo calor, peguei uma bruta gripe, sem febre, mas daquelas que lembram o século passado, em que se fazia escalda-pés e se colocava uma toalha molhada na cabeça.
Sofri as penas do fogo eterno durante quatro días de calor abafado, coriza sem interrupção para respirar, dor de rosto inteiro, tosse seca de doer músculo são... Enfrentei chuveiro frio e ar condicionado, apesar de protestos veementea de minha vizinha que de-tes-ta frio e, sobretudo, ar condicionado.
Assim que tive trégua do desespero, escrevi que nem uma ensandecida. Fou o que me salvou do tédio da casa e da sensaboria da vida gripal.
Mandei dois textos para minha amiga craque não de futebol, mas de letras e publicações via internet, Vãnia Diniz, esperando que os demais amigos do yahoogrupos.com.br lessem e gostassem, o que me faria dar menos dois ou três espirros.
Não recebdno tantas respostas como ansiava, decidi escrever mais um, inspirada nos passarinhos que me fizeram companhia na varabda picola de meu apart.
Aí vai o Gavião e Passarinhos, imitação do título de Pasolini que acho lindo.
Gaviões e passarinhos
...Porque, criança, os pássaros não falam
Gorgeando apenas sua dor exalam
Sem que os homens os possam entender...
Olavo Bilac
Não, não se assustem. Não vou plagiar Pasolini em sua paródia cinematográfica da luta de classes. Roubo-lhe apenas o nome do filme. Falo de aves mesmo.
As aves de minha rua não são de porte grande: são passarinhos. É verdade que há pombos, mas raros, e as gaivotas vêem-se longe lá bem alto, quando desfilam em carreiras simétricas.
Gente da cidade está condenada a poucos encantos da natureza, eu sei. Daí que todas as manhãs me atraem, me trazem à vida os chilreios e pios dos passarinhos, que não conheço pelo nome, estúpida que sou. Tirando bentevi, beija-flor, pardal, canário, o resto me é desconhecido. Nem a sabiá, de Tom Jobim, sei identificar.
Nunca me dediquei a estudar pássaros. Preferi imaginá-los nas metáforas e descrições dos poemas. Too bad! Sinto vergonha da minha falta de erudição ornitológica. Que glória saber o nome em latim dos pássaros de minha terra!
Tenho muitas razões para apreciar os passarinhos: delicadeza de alma e de figura, vôo irresponsável, inquietação gostosa, pouso de equilibrista na pontinha de um galho, ainda que de planta sem valor, bater de asas perfeito ao mesmo tempo em que se alimenta de flores...
Torço por eles, sofro sua ausência, desde o dia em que caiu ferido um bem pequenino, no quintal de minha casa, expulso da mangueira aparentemente acolhedora de ninhos. Tremelicou e morreu em minhas mãos, sem um pio. Eu nem entendia ainda o que significava “morrer como um passarinho”, comparação consoladora para o inevitável fim humano, que só constatei na morte de minha mãe.
Gosto de seus cantos, diferente de meu irmão boêmio, que não conseguia conciliar o sono por causa da seresta matinal em volta de seu quarto.
Odeio a prisão das gaiolas, desde que Olavo Bilac reiterou o caráter maligno da prisão de um pássaro.
Desejo que os passarinhos a meu redor voem cem anos, no mínimo. Enfeitariam minhas manhãs de velha lúcida de mais de cem - minha meta atual; não faço por menos. Continuariam a espalhar graça e chilreio, anunciariam vivacidade, logo pela manhã.
Hoje, como sempre, parei para observar por alguns minutos o passarinho pousado no alto da palmeira imperial de minha esquina. Voava despretensioso e, de repente, um pouco cansado, encontrou um local de pouso metade do meu mindinho. Eu que cambaleio com o balanço ameno de um navio em mar nada cruel; que tropeço nas pedras portuguesas das calçadas e em meus próprios pés, quando não chuto móveis; que não alcanço um pulo de menos de meio metro do solo; que não consigo assobiar de jeito nenhum; que abro minhas “asas” sem jeito apenas para abraçar as pessoas mais queridas; que me comunico com voz arranhada via telefone ou nem isso, via computador, morro de inveja e os admiro, cada vez mais.
Soube esta manhã que os gaviões da mata lá da Gávea estão atacando os pássaros de meu bairro. E eu nem sabia da existência de gaviões por aqui. Não sei porque foram contar horror tamanho a uma pessoa fragilizada pelas notícias medonhas do dia a dia dos humanos, que dirá de uma ave, sem nenhum pecado, nem venial.
Gavião sempre foi símbolo de poder de destruição, pior que urubu, pois este come depois da morte do objeto de sua gula. Sei que há gaviões humanos pela aí, mais maquiavélicos, pois matam seu semelhante por pura ganância de dinheiro ou por vingança, não por fome. A cada dia, ouço mais e mais tragédias de homens-gaviões a destroçar outros homens. Não me acostumo, sempre me revolto.
Mas digo a vocês, com toda a sinceridade:, se me dessem uma arma de longo alcance e eu pegasse um gavião voando em direção aos meus passarinhos, era um tiro certeiro, com certeza. Sem nenhum arrependimento.
Maria Lindgren
Estamos em janeiro de 2010, pasmem!!!!!
Ano -Novo, novo resfriado muito forte, depois de viagem marítima bem sucedida. Ah! O calor do Rio de Janeiro! Quase perco as malas e a cabeça, claro, pois sair de uma "nave" que "va" com ar condicionado e muito vento fresco todo o tempo e cair na brasa carioca do cais do porto, com direito à mulatas rebolando e tudo, é pra colocar nacaquinhos no sótão, domo dizia minha mãe.
Como não havia macaquitos nem macacões, todos embrenhados no pouco de Mata Atlântica que ainda nos resta, apavorados pelo calor, peguei uma bruta gripe, sem febre, mas daquelas que lembram o século passado, em que se fazia escalda-pés e se colocava uma toalha molhada na cabeça.
Sofri as penas do fogo eterno durante quatro días de calor abafado, coriza sem interrupção para respirar, dor de rosto inteiro, tosse seca de doer músculo são... Enfrentei chuveiro frio e ar condicionado, apesar de protestos veementea de minha vizinha que de-tes-ta frio e, sobretudo, ar condicionado.
Assim que tive trégua do desespero, escrevi que nem uma ensandecida. Fou o que me salvou do tédio da casa e da sensaboria da vida gripal.
Mandei dois textos para minha amiga craque não de futebol, mas de letras e publicações via internet, Vãnia Diniz, esperando que os demais amigos do yahoogrupos.com.br lessem e gostassem, o que me faria dar menos dois ou três espirros.
Não recebdno tantas respostas como ansiava, decidi escrever mais um, inspirada nos passarinhos que me fizeram companhia na varabda picola de meu apart.
Aí vai o Gavião e Passarinhos, imitação do título de Pasolini que acho lindo.
Gaviões e passarinhos
...Porque, criança, os pássaros não falam
Gorgeando apenas sua dor exalam
Sem que os homens os possam entender...
Olavo Bilac
Não, não se assustem. Não vou plagiar Pasolini em sua paródia cinematográfica da luta de classes. Roubo-lhe apenas o nome do filme. Falo de aves mesmo.
As aves de minha rua não são de porte grande: são passarinhos. É verdade que há pombos, mas raros, e as gaivotas vêem-se longe lá bem alto, quando desfilam em carreiras simétricas.
Gente da cidade está condenada a poucos encantos da natureza, eu sei. Daí que todas as manhãs me atraem, me trazem à vida os chilreios e pios dos passarinhos, que não conheço pelo nome, estúpida que sou. Tirando bentevi, beija-flor, pardal, canário, o resto me é desconhecido. Nem a sabiá, de Tom Jobim, sei identificar.
Nunca me dediquei a estudar pássaros. Preferi imaginá-los nas metáforas e descrições dos poemas. Too bad! Sinto vergonha da minha falta de erudição ornitológica. Que glória saber o nome em latim dos pássaros de minha terra!
Tenho muitas razões para apreciar os passarinhos: delicadeza de alma e de figura, vôo irresponsável, inquietação gostosa, pouso de equilibrista na pontinha de um galho, ainda que de planta sem valor, bater de asas perfeito ao mesmo tempo em que se alimenta de flores...
Torço por eles, sofro sua ausência, desde o dia em que caiu ferido um bem pequenino, no quintal de minha casa, expulso da mangueira aparentemente acolhedora de ninhos. Tremelicou e morreu em minhas mãos, sem um pio. Eu nem entendia ainda o que significava “morrer como um passarinho”, comparação consoladora para o inevitável fim humano, que só constatei na morte de minha mãe.
Gosto de seus cantos, diferente de meu irmão boêmio, que não conseguia conciliar o sono por causa da seresta matinal em volta de seu quarto.
Odeio a prisão das gaiolas, desde que Olavo Bilac reiterou o caráter maligno da prisão de um pássaro.
Desejo que os passarinhos a meu redor voem cem anos, no mínimo. Enfeitariam minhas manhãs de velha lúcida de mais de cem - minha meta atual; não faço por menos. Continuariam a espalhar graça e chilreio, anunciariam vivacidade, logo pela manhã.
Hoje, como sempre, parei para observar por alguns minutos o passarinho pousado no alto da palmeira imperial de minha esquina. Voava despretensioso e, de repente, um pouco cansado, encontrou um local de pouso metade do meu mindinho. Eu que cambaleio com o balanço ameno de um navio em mar nada cruel; que tropeço nas pedras portuguesas das calçadas e em meus próprios pés, quando não chuto móveis; que não alcanço um pulo de menos de meio metro do solo; que não consigo assobiar de jeito nenhum; que abro minhas “asas” sem jeito apenas para abraçar as pessoas mais queridas; que me comunico com voz arranhada via telefone ou nem isso, via computador, morro de inveja e os admiro, cada vez mais.
Soube esta manhã que os gaviões da mata lá da Gávea estão atacando os pássaros de meu bairro. E eu nem sabia da existência de gaviões por aqui. Não sei porque foram contar horror tamanho a uma pessoa fragilizada pelas notícias medonhas do dia a dia dos humanos, que dirá de uma ave, sem nenhum pecado, nem venial.
Gavião sempre foi símbolo de poder de destruição, pior que urubu, pois este come depois da morte do objeto de sua gula. Sei que há gaviões humanos pela aí, mais maquiavélicos, pois matam seu semelhante por pura ganância de dinheiro ou por vingança, não por fome. A cada dia, ouço mais e mais tragédias de homens-gaviões a destroçar outros homens. Não me acostumo, sempre me revolto.
Mas digo a vocês, com toda a sinceridade:, se me dessem uma arma de longo alcance e eu pegasse um gavião voando em direção aos meus passarinhos, era um tiro certeiro, com certeza. Sem nenhum arrependimento.
Maria Lindgren
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Rio de sol, de céu e mar
If I can stop one Heart from breaking
I shall not live in vain
If I can ease one Life from Aching
Or cool one Pain
Or help one fainting Robin
Unto his Nest again
I shal not live in Vain
(Emily Dickinson, Poem 919)
Rio de sol, de céu e mar...
Guerrilha urbana diária, eis o vivemos nesta cidade “ abençoada por Deus e bonita por natureza”. Todos os dias, balas se cruzam morro abaixo e morro acima, entram por acaso em casas de famílias e escolas, raspam ou ferem pernas, braços, abdômen e cabeças, aleijando ou ceifando vidas de inocentes. Moradores atônitos seguem sua rotina de correria, do ir e vir estancado, escondem-se atrás de carros parados, precária trincheira que não lhes dá proteção suficiente, como não o faziam as da chamada Guerra de 1914, testemunhadas no cinema. Ou tentam proteção em vãos de entrada de pequenas lojas comerciais, fáceis alvos para metralhadoras e outras armas que desconheço. Em geral, crianças os acompanham no pique-esconde do horror, pequenas vitimas cujo olhar a tevê nem sempre nos mostra, mas se adivinha esbugalhado, pelo não entendimento da situação, quando pequenos demais, ou pelo medo, quando um pouco maiores. Seu choro não se pode ouvir tal a barulheira. Os carros negros da polícia, sinistros como tanques de outras guerras, espalham mais ainda o terror, sem piedade. Os policiais procuram por em prática os ensinamentos recebidos por “sargentos” mais aptos, mais cruéis, que ganham pouco, mas se orgulham da farda e do ofício, ninguém entende porquê. Portam coletes à prova de bala que, por sinal, deveriam ser distribuídos pela comunidade como fazem os agentes de saúde com as camisinhas, ainda que morram muitos, tantos quanto os bandidos. Com honras de militar, suas famílias recebem bandeiras dobradas, ouvem o estourar dos tiros de homenagem e choram copiosamente. Os pais, tios e outros parentes dos leigos, que morrem por mero acidente de percurso, dão depoimento dramático na televisão, juram que seus mortos na flor da idade eram bons estudantes ou trabalhadores, enquanto a tevê lhes expõe as fotos, para nosso constrangimento impotente. Avós multiplicam-se para cuidar dos netos sem mãe, mais do que já o fazem devido à condição financeira precária da gente moça que tem que ganhar a vida. A luta dura horas de angústia, palpitação cardíaca, e sangue, sobretudo. Granadas não explodem, mas existem, como prova o material depois exposto pela polícia. Os casos da guerra urbana são quase sempre iguais. Um, no entanto, o do Morro dos Macacos, ocorrido há semanas, passará à história de 2009 como o auge da prova de inépcia das autoridades. O piloto era o único com roupa à prova de fogo, já seus companheiros... Acompanhamos abestalhados o helicóptero atingido e em queda seguida de explosão, cena de filmes de atrocidades, apelidados de “adrenalina máxima” para o espectador, que hoje vemos indiferentes, sem a emoção dos clássicos lança-chamas da Guerra de 40 ou da menina queimada da Guerra do Vietnam. A ousadia da bandidagem no Rio de Janeiro chega a seu limite.
Enquanto isso, a passeata Gay, em pleno Dia dos Mortos, para minha surpresa, se colore de fantasias, em carnaval fora de propósito. E se tinha que ser neste dia de respeito aos mortos, por que os gays que, diga-se de passagem, são de minha convivência sem nenhum preconceito, não saíram vestidos de negro, em protesto de milhares de cidadãos contra uma cidade que vive de eventos? E, para mal de meus pecados, lá estava nossa autoridade maior, em demonstração de que apoiar os gays, tornar o Rio o maior destino Gay do mundo, é mais importante do que acabar com o destino infausto de nossa cidade sitiada.
Maria Lindgren
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I shall not live in vain
If I can ease one Life from Aching
Or cool one Pain
Or help one fainting Robin
Unto his Nest again
I shal not live in Vain
(Emily Dickinson, Poem 919)
Rio de sol, de céu e mar...
Guerrilha urbana diária, eis o vivemos nesta cidade “ abençoada por Deus e bonita por natureza”. Todos os dias, balas se cruzam morro abaixo e morro acima, entram por acaso em casas de famílias e escolas, raspam ou ferem pernas, braços, abdômen e cabeças, aleijando ou ceifando vidas de inocentes. Moradores atônitos seguem sua rotina de correria, do ir e vir estancado, escondem-se atrás de carros parados, precária trincheira que não lhes dá proteção suficiente, como não o faziam as da chamada Guerra de 1914, testemunhadas no cinema. Ou tentam proteção em vãos de entrada de pequenas lojas comerciais, fáceis alvos para metralhadoras e outras armas que desconheço. Em geral, crianças os acompanham no pique-esconde do horror, pequenas vitimas cujo olhar a tevê nem sempre nos mostra, mas se adivinha esbugalhado, pelo não entendimento da situação, quando pequenos demais, ou pelo medo, quando um pouco maiores. Seu choro não se pode ouvir tal a barulheira. Os carros negros da polícia, sinistros como tanques de outras guerras, espalham mais ainda o terror, sem piedade. Os policiais procuram por em prática os ensinamentos recebidos por “sargentos” mais aptos, mais cruéis, que ganham pouco, mas se orgulham da farda e do ofício, ninguém entende porquê. Portam coletes à prova de bala que, por sinal, deveriam ser distribuídos pela comunidade como fazem os agentes de saúde com as camisinhas, ainda que morram muitos, tantos quanto os bandidos. Com honras de militar, suas famílias recebem bandeiras dobradas, ouvem o estourar dos tiros de homenagem e choram copiosamente. Os pais, tios e outros parentes dos leigos, que morrem por mero acidente de percurso, dão depoimento dramático na televisão, juram que seus mortos na flor da idade eram bons estudantes ou trabalhadores, enquanto a tevê lhes expõe as fotos, para nosso constrangimento impotente. Avós multiplicam-se para cuidar dos netos sem mãe, mais do que já o fazem devido à condição financeira precária da gente moça que tem que ganhar a vida. A luta dura horas de angústia, palpitação cardíaca, e sangue, sobretudo. Granadas não explodem, mas existem, como prova o material depois exposto pela polícia. Os casos da guerra urbana são quase sempre iguais. Um, no entanto, o do Morro dos Macacos, ocorrido há semanas, passará à história de 2009 como o auge da prova de inépcia das autoridades. O piloto era o único com roupa à prova de fogo, já seus companheiros... Acompanhamos abestalhados o helicóptero atingido e em queda seguida de explosão, cena de filmes de atrocidades, apelidados de “adrenalina máxima” para o espectador, que hoje vemos indiferentes, sem a emoção dos clássicos lança-chamas da Guerra de 40 ou da menina queimada da Guerra do Vietnam. A ousadia da bandidagem no Rio de Janeiro chega a seu limite.
Enquanto isso, a passeata Gay, em pleno Dia dos Mortos, para minha surpresa, se colore de fantasias, em carnaval fora de propósito. E se tinha que ser neste dia de respeito aos mortos, por que os gays que, diga-se de passagem, são de minha convivência sem nenhum preconceito, não saíram vestidos de negro, em protesto de milhares de cidadãos contra uma cidade que vive de eventos? E, para mal de meus pecados, lá estava nossa autoridade maior, em demonstração de que apoiar os gays, tornar o Rio o maior destino Gay do mundo, é mais importante do que acabar com o destino infausto de nossa cidade sitiada.
Maria Lindgren
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Lento..., extrato de poema de Natercia Freire
" Estou no fundo ou estou nos cimos?
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"
Boas-vindas
Minha gente querida
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren