domingo, 28 de novembro de 2010

Socorro - O Rio não continua tão lindo assim

Socorro!

De repente, saio à rua para um de meus tratamentos da coluna e vejo um bairro meio vazio. A princípio, enclausurada em minha própria obsessão da doença, estranho. Passo a esperar um taxi, como sempre e, para minha surpresa, está fácil demais de se entrar em um. “Deve ser a proximidade do final do mês, afinal, estamos no dia 25de novembro”, penso, alienada.
Entro e o motorista, de rádio ligado bem alto, me traz as piores notícias do Rio de Janeiro, cidade dita e repetida Maravilhosa, ninguém entende por que. Trinta e três mortos e não sei quantos feridos na guerra retomada(?) dos bandidos contra a polícia e, agora, contra nós, que mal bebemos um copo de chope. O clima da Rádio Tupi é de arrepiar os poucos pelos que tenho no braço. Uma gritaria nas entrevistas, uma barulheira de sirenes, um constatar do não-poder-fazer-nada, um horror.
Eu que já ando meio zonza por conta de uma labirintite, só fiz piorar. Saltei do táxi quase caindo nas pedras portuguesas meio desfalcadas das calçadas, ainda com a voz do motorista a me aconselhar:
- Eu, se fosse a senhora, não saía de casa esses dias. Inda mais com tonteira.
À saída do consultório do fisioterapeuta, deparo-me com um elevador vazio, o que é raro no prédio repleto de consultórios. Certamente, fizeram como eu, que adiei uma consulta de manhã cedo na Barra da Tijuca. Só que, no meu caso, por motivo particular.
Acho que não foi surpresa para ninguém que pensa o mundo de hoje a reação dos famigerados bandidos, depois da implantação de sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora. Os miseráveis tinham que provar que podem mais que a polícia e o estão fazendo com enorme alarido.
Vi cenas na tevê de desanimar: montes de ônibus incendiados, balas misturadas da polícia e dos bandidos, famílias em correria desenfreda para suas casas (mães e filhos pequenos, em geral). Nem as vans, preferidas da classe popular carioca, também ninguém entende porque, escaparam do absurdo bélico: estão sendo igualmente incendiadas. O comércio de pouca venda fecha as portas e reza para o problemão não chegar até às vésperas do Natal. Clima de Afeganistão ou Iraque.
Na volta do tratamento, ouço um idiota dizer no rádio:
Pior que tudo é o triste papel do Brasil no exterior. Todos os jornais do mundo noticiaram a tragédia do Rio.
Revoltada, quero sair bem rápido, mas ainda tenho tempo de dizer ao taxista:
Pior por causa do mundo, nada. O mundo é uma vergonha de tanta guerra. Pior mesmo é para nós, da nossa terra, que sofremos esta barbárie há muito tempo.
Lembrei-me de minha filha, que já teve revólver e faca apontados para ela em tr|~es ocasiões. E olhe que ela continua a sair sozinha, que fazer?
Que-fazer são as palavras que não saem das bocas dos cariocas, em lugar dos festejoa natalinos que se aproximam.
Que o menino-Deus possa ser comemorado em paz, amén!

Um comentário:

virgínia além mar vicamf disse...

doce escritora e amiga Maizé passai para interagir e deixar meu abraço.
mto. boa crônica, sobretudo porque tem teu olhar sobre a situação.

Lento..., extrato de poema de Natercia Freire

" Estou no fundo ou estou nos cimos?
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"


Boas-vindas

Minha gente querida
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren