quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Símbolo perfeito

Não aguento mais tantos votos no fim do ano de 2010. Preferi, pois, fazer uma crônica que, de fato se passou comigo, e lhes enviar minha mensagem de Ano Novo, leitores amigos
Espero que gostem do Símbolo perfeito.


Símbolo perfeito

Penúltimo dia de 2010. Apressada, vou ao banco que mais odeio, raspar os ralos reais que me sobram, graças à contenção da volúpia de compras. “Aquele” banco repleto de velhotes e velhotas aposentados, e de alguns funcionários públicos mal ajambrados, à espera de suas minguadas granas.
Os aposentados compassivos aceitam – e até curtem – a demora. Descansam da rua doida de gente, trânsito e calor, às vezes, batem papo com um vizinho mais simpático, raridade no Rio de Janeiro.
- Graças a Deus o calor melhorou, né mesmo? Tou até sentindo frio.
- Este banco é um pouco lento. A gente leva horas aqui. Até que hoje está melhorzinho: poucas pessoas ainda tem o que retirar.
- Aquele caixa careca é o mais simpático. O resto é tudo mal-humorado.
O temperamento difícil de caixa de banco da nossa cidade, já se sabe, deve-se ao salário baixo. Aqui, apesar da greve longa, parece que os patrões nem se tocaram.
Mal sento e ouço gritarem meu número de senha. Como sempre, tremo. Vão errar tudo. Não deu outra. Levo uma meia-hora, no mínimo, explicando meus problemas particulares, o que me faz remoer mágoas deixadas em banho-Maria nas festas de fim de ano. E bato queixo de frio no ar condicionado a toda. Mal humorada, penso que minha indumentária nunca acerta com a meteorologia, nem com o ar artificial de shopings, cinemas e bancos.
Passo de novo na porta giratória detectora de metal, que se havia zangado com meras chaves da minha bolsa., o que provocara comentários desairosos dos guardas, indicativos de minha idade:
- Calma, minha senhora!!!! Pra quê a raiva? Cuidado!!!!Olha o coração!!!!
Xingo minha maquiagem que não camufla as rugas, ponho os belos óculos dados a mim mesma de presente em rasgo de mão-aberta.
Vou direto ao salão me embelezar os cabelos, com um dedo ou quase de brancos a reiterar o horror e a canseira da velhice nos tempos modernos de nada de “ respeite ao menos meus cabelos brancos”, como na canção antiga. O salão de segunda em shoping de primeira regurgita: gente por todo lado, sobretudo nas manicures. Querem entrar o ano novo sem vislumbre de desmazelo.
Subo a escada em caracol sem leveza, estatelo-me numa poltrona feiosa, olho-me ao espelhão sob a luz fria azulada e detestada: estou feia demais. Que pescoço mais franzido!!!!
A cabeleireira doce e meiga, de um salto, apanha o último número da revista de fotos, para me agradar. Coitada, não sabe que acabo de ler O Túnel, de Ernesto Sábato, e odeio revistas de gente que se veste de cafonália em ilusão de elegância francesa dos grandes salões.
Penso em minha filha que vaticina um fututo cada vez mais inculto para um país que se pretende a 5ª economia do mercado mundial. Moda também é cultura. Livro, ninguém lê.
De qualquer modo, ativo o desfile de magras, gordotas e até gordas, todas com dinheiro de empresas e indústria nacionais e multinacionais. Nenhuma professora, nenhum médico de classe média, nem mesmo um jornalista mais desconhecido. Entre as raras celebridades internacionais, destaco Penélope Cruz, grávida de oito meses, feliz da vida por ter casado com o gatão Javier Barden.
Entre Giseles, Danielas, Giovanas e um ou outro homem da famoso dou um ufa de alivío e fecho a revista, bem na hora de fazer as unhas. Escolho o esmalte mais tchan, o de cor vinho, para combinar com o vinho da ceia de fim de ano. Até a manicure se espanta:
- Humm, humm!!!!!
Cabeça lavada por mãos mágicas, reconcilio-me com a vida. Respiro bem fundo. Até que não estou tão mal assim.
Saio do salão sorriso aberto para todas as presentes, desejo-lhes bem alto um Feliz Ano Novo, e só então me lembro que ninguém me ouve por causa do barulhão dos secadores de cabelo.
Reflito dois minutos sobre a estupidez humana da globalização capitalista, ao observar minhas companheiras de sexo em frenéticas compras ainda, caras como só meu Rio sabe fazer, segundo me contam os que viajam ao exterior e voltaram carregadíssimos de tudo.
Ando devagar e vejo ao longe um boneco dentro de um carrinho bem grande, sobre um dos bancos de descanso do corredor. Aproximo-me de leve, e a visão me ilumina: uma bebêzinha de dois meses, de carne e osso, de brinquinho de pérola, mínima. Rio para a menininha e ela me sorri, acreditem, apesar da cara antipática da mãe.
O Ano Novo começa aí.

Maria Lindgren

Um comentário:

Efigênia Coutinho disse...

Ainda bem que os poemas bonitos não se acabam, querida Efigênia.
Maria lindgren


Venho aqui agradecer sua sempre generosa atenção e carinho, uma virtude rara, mas em pessoas especiais ainda existem,
desejando a você um FELIZ 2011
Com afeto,Efigenia

Lento..., extrato de poema de Natercia Freire

" Estou no fundo ou estou nos cimos?
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"


Boas-vindas

Minha gente querida
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren