quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Carná chegando

Carná chegando O Rio de Janeiro continua lindo.../ Em fevereiro, tem carná...(Gilberto Gil, 1972) Ouço ao longe a charanga meio desafinada e o típico rufar dos tambores pacíficos (?) do Carnaval do Rio. Meu corpo responde, nem sei bem porque, com um arrepio de outrora. Parece que me vejo faceira a remexer os quadris no meu quintal de menina, em fantasia de baiana, em homenagem à Carmen Miranda, uma das precursoras das marchinhas carnavalescas com Taí, dos anos 30. Da porta da cozinha, mamãe bate palmas de aprovação, em riso aberto, enquanto minha irmã assiste sem grandes entusiasmos. De tardinha e à noite, choro e ranger de dentes porque meu pai, católico fanático, detestava a manifestação dos pouco ou nada religiosos: - Carnaval é coisa do diabo. - Depois, a gente confessa, retrucava mamãe. À mãe e à filha mais nova somente importava a excitação do samba e das marchinhas no rádio, decorados meses antes, com a atenção dada aos livros herméticos de filosofia que, aliás, aprendi a odiar na Faculdade de Letras, por impingido à turma de qualquer jeito. Ah, Heidegger de minhas insônias! Grande animadores do Carnaval os do rádio daquele tempo. Valia o momento em que se vivia a felicidade. Coisa ruim, só para fazer gozação. Grupos de músicos de fama ou mesmo desconhecidos do grande público surgiam daqui e dalí. Melodia e letra aprendidos, ainda que, em criança, nem sempre entendêssemos as mensagens: elogios políticos Bota o retrato do velho, outra vez/ bota no mesmo lugar.... : racismo óbvio O teu cabelo não nega, mulata...; capitulação à beleza: Branca é branca, preta é preta/ mas a mulata é a tal.../ ; situação financeira precária remediada pela cachaça: Ei, você aí, me dá um dinheiro aí...; preconceito disfarçado contra os homossexuais masculinos: Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é/ será que ele é...e tantas outras, inspiradas no cotidiano. Mistério para nossas mentes, alegria para vozes e rítmos infantis. O resto eram marchas-rancho, trégua ao cansaço dos foliões: A Estrela Dalva, no céu desponta... / Um pequenino grão de areia/ que era um pobre sonhador.../ Bandeira branca, amor, não posso mais... Será que se acabaram os compositores carnavalescos ou foi a qualidade das mídias que deu na desgraça que deu. Ou ainda, será minha rabugice de gente velha, que não acompanha o “evoluir” do mundo? E o samba-enredo das escolas, minha gente. Era calmo, bem compassado, ritmado sem grandes pressas, dava tempo dos passistas e da bateria exibirem seus dotes. Autênticos, saídos às vezes de pobres com falhas de dentes, e de seus amigos próximos, choravam as mágoas ou o bom da vida, em plena Praça Onze ou na Avenida Presidente Vargas, sob os aplausos delirantes da platéia, atrás dos cordões de isolamento, onde coubesse mais um corpo cheio de remelexo. Nada de camarotes especiais para gente endinheirada e turistas idem, que estes tinham os grandes bailes onde se exibir. O mais famoso, o do Teatro Municipal, sem dúvida, com passarela e tapete vermelho tipo Oscar do cinema hollywoodiano, para os plebeus apreciarem de cá de baixo, no chão da Cinelândia, o desfilar das fantasias da elite. Não falo aqui do que viveu minha família materna, por antigo demais. Acho que os carros alegóricos de hoje devem ter sido inspirados nos desfiles do Corso em carros abertos, assistidos por minha mãe, boquiaberta pelas fantasias, pelos frascos de lança-perfume, pelo confete e pela serpentina. Ou, mais certo ainda, vieram das endiabradas Sociedades Carnavalescas, frequentadas por meus tios “da fuzarca”, como dizia minha mãe. Relembro os blocos de rua a que assisti desde muito nova, pela mão materna, na Avenida Rio Branco, vindas de barca lá do outro lado da Baía, onde morávamos. Escolhíamos as imitações mais grotescas: figuras fantasiadas de Carlitos, homens-homens vestidos de mulheres com a roupa das irmãs, caricaturas dos políticos da época, jovens bem barrigudas vestidas de noiva... Imitação irônica do que sobressaía no cotidiano do povão carioca de meus amores. E muito mais tarde, casada e com filhos crescidos, nos anos de 1980, me dá dor a lembrança da participação fantasiada e tudo, no bloco do Clube do Samba, de João Nogueira, em vários carnavais, junto com meu companheiro carnavalesco e outros amigos, bem chegados aos pulinhos, pulões, requebrados etc., compartilhando o Carnaval com Elisete Cardoso ou Bete Carvalho, para minha grande emoção. Ou do dia em que, no Sambódromo ainda de arquibancada improvisada, nos atiramos à passarela, arrebatados pela Verde e Rosa, Mangueira querida, gritando com Jamelão o samba-enredo vencedor, aos saltos de satisfação pela grande vitória. De lá pra cá, quase nada. Um ou outro samba e enredo por acaso prestados à atenção na correria com que têm que passar os sambistas, a bateria e os carros alegóricos descomunais, devido ao crescimento das Escolas, entupidas de celebridades e gente de fora. Muito bloco de maioria jovem, nas ruas dos bairros da Zona Sul, que não posso usufruir bem sem o gosto tão saboroso da mocidade; o desfile na TV até meia-noite, uma hora, ou no dia seguinte, se o desfile avançar manhã a dentro, como é habitual. E só. Ai, meu Carnaval tão querido! Maria Lindgren

2 comentários:

Cambotta Paula disse...

Maravilha!! Como sempre mto bom gosto nas palavras... texto simples.. de fácil compreensão.. leve.. suave.. Parabéns!!

jorge vicente disse...

Ah, que boas lembranças as suas!!!

Aqui em Portugal, tenho as lembranças de um Carnaval em Torres Vedras e em Tomar, simplesmente maravilhoso, com os nossos chamados cabeçudos, característicos do Carnaval português!!!

Muitos abraços oceânicos!
Jorge Vicente

Lento..., extrato de poema de Natercia Freire

" Estou no fundo ou estou nos cimos?
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"


Boas-vindas

Minha gente querida
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren