Deslumbramento
Oitenta e cinco anos e uma vida de desejos cada dia mais difíceis de
realizar, eu sei. Exercito meu corpo, minha maior preocupação e, por que não
dizer, alegria. Desportista amador em time de volei de areia organizado pelo
meu pessoal do banco em que trabalhava.
A contragosto, passei para a corrida no calçadão, depois, passinhos bem rápidos,
finalmente, caminhadas de passo lento. Deixei meio tristonho os colegas ao pé da
rede, mas conformado: ninguém gosta de gente brocha na vida esportiva.
Se encontro com eles, aperto o passo: não dou o braço a torcer. Aliás,
nem sei porque essa vaidade toda. Meus amigos praianos daqui a pouco vão estar
que nem eu: aposentados do caixa de banco, sem grana e cheio de dores. Joelho, então...
No tempo de caixa de banco, eu vivia me queixando. - Meu Deus, ter que
lidar com dinheiro é fogo. Quanta gente chata! A velha reumática sem
acompanhante nenhum não sabe nem o número da conta, que dirá senha de cartão. A
moça aposentada por neurose treme tanto que o cartão cai várias vezes no chão e
os vizinhos de fila têm que apanhá-los. O moço uniformizado de não sei quê é
burro demais: custa a entender que dia de pagamento o banco fica cheio e
reclama comigo que não tenho nada a ver com isso. A curadora do filho doente
pensa que tudo se justifica, só ela tem problema, exige atenção especial até do
gerente... Eu achava que um dia eu dava um berro, mandava todos para o inferno.
Ou, mais simples e menos pecaminoso, à
merda.
Aposentei-me com os famigerados trinta anos de serviço público, que meu
banco é público. É tempo pra burro. Eu não aguentava mais. Ganhava uma miséria,
mesmo com as greves seguidas que fazíamos. Eu, claro, aderia, sem pestanejar.
Até para a porta do banco eu me mandei, com risco de receber uma cacetada da
polícia, que teve que ser chamada muitas vezes, para acalmar a turba.
No dia da aposentadoria, que festa os colegas me fizeram! Até Prosecco
tinha. Claro que champanhe não dava para os bolsos furados. As moças trouxeram
salgadinhos e um bolo brigadeiro incrivel. Nunca fui tão feliz. Nem nos tempos
em que achava que banco pagava bem e me metí a estudar para o concurso, com uma
garra! Trinta anos de caixa, gente, é danado pra qualquer um. A bunda não
aguenta mais ficar assentada numa cadeira dura o dia todo. O corpo fica moído.
Depois, estranhei a falta da rotina. Quase fiquei deprimido. O doutor do
Plano de Saúde que me deu um antidepressivo e um conselho sábio foi quem me
salvou:
- Jamais pare de fazer exercício com o corpo!
Moro perto da praia dos maduros e quase-caducos de velhice: Copacabana. Um
verdadeiro presente. Chuva fina ou sol mais
ou menos, lá vou eu ao passeio pelo calçadão. Durante anos, com minha mulher; sozinho,
depois de viúvo. Talvez minha passada seja ridícula de pequena, meu joelho não
dobre bem, mas ainda tenho bastante garra. Do Posto Cinco ao Leme, lá vou eu devagar
e sempre, impulsionado por vento e vista, na praia mais linda do Rio. A que
atrai mais turistas, até hoje.
Paro para uma água de coco, respiro fundo e continuo, mais refrescado,
mais atrevido. Sinto-me bem, um atleta ainda e sempre. Enquanto há vida, há
atletismo, sinônimo de saúde. Tosas as mahãs e à tardinha, o mesmo programa:
caminhar, ver gente animada de todas as idades.
Nem preciso botar despertador: às seis e meia, me levanto , tomo café da
manhã e... praia. Estou morenão, com a careca protegida pelo boné, que não sou
bobo. Ganhei um de meu filho mais velho que mora sabe onde, na Bulgária. É todo
vermelho, com letras brancas na frente, escrito Sofia, Bulgary. Acho que ainda é
homenagem ao comunismo que já acabou há muito tempo.
A dor de cabeça, a tonteira e a voz sumida, caso de minutos. Pânico
geral. Doutores da melhor qualidade vaticinaram o acidente vascular cerebral grande,
sem cura, por certo. Eu não entendia nada. Aos poucos, disseram não sei a quem
que o coágulo se ajeitaria no cérebro ou se diluiria. Com o tempo, se não
houvesse nenhuma complicação.
Quero falar, quero me mexer na
cama, nada: apenas rostos embaçados a minha volta. Nem sei como tomo líquidos.
E toca de exercícios, toca de esforços: uma infinidade. Nem assim. Ah!, meu
Deus! Que saudade do tempo em que vivia a brisa da praia no outono bonito da
cidade! Ou mesmo no inverno de pouco frio! No verão tórrido, menos, confesso.
Respiro melhor, balbucio palavras, como se perguntasse à moça de branco o
que tinha havido, quando ia poder sair de casa. Ela disfarçava, não dizia coisa
com coisa. Caso muito grave, pensa ela. Levaria meses até que pudesse
transformar os sons em palavras articuladas. Fazia pequenos movimentos, mais
tarde gestos, soltava gemidos altos que
só faziam irritar as pessoas. Braços, mãos, pernas...tudo esquisito.
Estou melhor um pouco, não sei. Olho para o lado da cama e vejo uma
cadeira à minha espera. Ah! É uma cadeira de rodas. Nem que seja para andar
pelo quarto, ir até à janela, aos poucos, quem sabe, à sala, à varandinha...
Olhar pela janela já é pedir demais. Embutido em mim mesmo, autista sem o
ser, eu definho, eu sei, mais por falta de interesse do que de músculos. Depois
de um tempão, decidem me colocar a muque na cadeira. Que drama! Muita agonia, muito
suor e, afinal, aleluia! Sentado, levam-me para a janela do quarto, mas não dá
para ver grandes vistas. Uma nesga de céu e olhe lá. Consigo ver a chuva, que
bom! Não saio há meses.
Se ao menos morasse em casa com
quintal, logo perdia essa cor amarelada, todos concordam. - Coitado, está melhor.
Parece que quer dizer alguma coisa importante e a gente não entende -, fala a
enfermeira.
Reza, choro, ranger de dentes e ínfimos progressos. Pode-se dizer que eu
me limito a abrir a meia-boca para comer as papinhas, que não me pedem esforço
brutal. Não sinto fome, sede, nadinha do que um ser humano necessita para
minimamente alimentar o corpo e viver. Nem vontade de fazer xixi. Que dirá,
cocô. Os pensamentos, esses, não estancam. Misturo lembranças do passado, com medo
do presente. Não penso na morte porque tudo é pouco nítido, quanto mais uma
coisa que ninguém conhece antes da hora.
Depois de um ano de labuta médica,
enfermeira trocada mil vezes por implicância familiar – aí incluidos a filha
casada e os netos maiores – o som da primeira palavra articulada: pppraaaia. Aleluia! Falei e disse!
Contente da vida, a acompanhante mais ágil que o resto me coloca na
cadeira quase sem esforço, porque quando se quer se consegue – meu lema atual.
Vai comigo até o elevador acho que de serviço, porque cadeira de roda não serve
para elevador social. Pede ao porteiro que abra a porta da frente do prédio
e... a rua, gente! Parece Lisboa mais bonita ainda, com suas pedras portuguesas
bem colocadinhas todas. Carros e carros, que progresso! Cada prédio, mama mia! Encho
meus olhos de lágrimas: pura alegria. A cadeira empurrada pelos dois
quarteiróes que me separam da Avenida Atlàntica, o vistão. O sol parece luz de quase cegar, a pleno vapor,
o céu azul claro ainda mais nítido que no verão, a brisa do outono fresco a me
bater suave no rosto. Estou no calçadão de meus amores, enfim. Olho o estirão de areia que me parece muito limpa,
passo a vista nas as ondas a baterem amantes em dia de amor calmo, no verde-azulado
do marzão que vai dar na África. Inspiro o ar mais e mais, saído de um
pesadelo, sorrio para a acompanhante mais simpática e eficiente deste planeta
e, em muito menor esforço de cabeça e boca, peço à moça : á...gua de cooo....co.
Desse dia em diante, quem passar às oito horas da manhã pela praia urbana
mais famosa do mundo, verá no calçadão um senhor todo de branco – bermudas,
camiseta e tênis, chapéu de caçador em safari na cabeça – não se passa para
ridículos bonés -, sentado numa cadeira que brilha ao sol, acompanhante
sorridente ao lado: o nosso homem em franca recuperação. Nem eu mesma quero
perder o dia em que o vir em pé, ensaiando os passinhos curtos que o levarão de
vez à felicidade.
Maria Lindgren
Nenhum comentário:
Postar um comentário