quarta-feira, 10 de março de 2010

De volta

De volta
Queria demais voltar à terra em que nasceu. De pele meio enrugada, cabelos pintados para disfarçar os brancos, corpo um tanto curvado, joelhos meio cansados... Ainda assim, uma bela viagem. Sonhava e sentia o cheirinho da terra, do ar não poluído de SUA aldeia, ouvia o sotaque carregado do Norte de Portugal, quase esquecido. Ah! Um poema de Florbela Espanca declamado por português autêntico!
Maria Joana tinha certeza de encontrar os festejos dos parentes, apesar dos sessenta e tantos anos longe, sem uma visita sequer, como era possível! Alguns mortos, no único cemitério, outros velhos vivos, nos diferentes povoados ao redor, poucos maduros, em Lisboa e Coimbra, como o primo nunca esquecido, de olhos verdes que lhe abriam o coração.
Será que receberia abraços carinhosos e beijos sentidos, até meio molhados, iguais aos que dera nas bochechas dos parentes, naquele longínquo passado em que deixara a família portuguesa com o marido? Quanto chão!
Na certa, um enorme nó lhe atacaria a garganta, qual hérnia de disco que não deixa respirar bem, ao rever o que restasse da casa do pai, morto há bastante tempo. Toda branca, impunha-se na paisagem da Serra do Marão, rodeada de pequenas casas a se humilharem diante da moradia central do professor único daquelas paragens.
Sim, porque o pai tinha ensinado a várias gerações, na aldeia pequenina. E respeitavam-no talvez mais do que a qualquer professor-doutor, desses que aparecem na tevê de hoje, para comentar os desastres ecológicos, a descoberta de novas formas de transplantes, as escaramuças assassinas das grandes cidades...
O homem jamais pisara em universidade, o que não lhe impedia o interesse pelos livros. Nem precisava. Sabia como conduzir os alunos às primeiras e médias letras. Não ultrapassava os cinco anos da escola primária. Conhecia suas limitações e as leis do magistério português. Todos os alunos numa mesma sala de aula, que jeito? Mas quem estudava com ele, não esquecia o prazer de ler, escrever, contar – ensinamentos básicos para o que der e vier.
A própria Maria Joana fora sua aluna e não mais estudara. Aos quinze anos, contava apenas com as luzes fracas de rapariga de aldeia: dedicava-se ao trabalho doméstico, ao lado da mãe, folheava o que lhe caísse ás mãos, em geral, velhos jornais. Namorado firme arranjado na vizinhança, livros, para quê?
Aos dezesseis anos, Brasil, bagagem pesada de sonhos e alguma roupa. Em companhia do rapazola que a desvirginara.
Um absurdo casar tão cedo, se pensarmos nos estratos sociais mais altos dos tempos modernos! Coisa trivial naquela época em que a mulher só valia alguma coisa se casasse. Não queria sofrer o risco de ser chamada M´nina Maria Joana para o resto de seus dias. Casamento dava dignidade e respeito. Passava a ser Sra. Dona.
Se tivesse que definir seus sentimentos em relação ao namorado diria que eram algo como uma coceira incipiente, que não chega a se alastrar corpo a fora ou a dentro, nem sei. Nenhum calor tão especial assim vinha-lhe das entranhas. Mas, o fato é que, meio sem graça, a relação sexual deu num filho.
Cumpridas as formalidades de praxe - licença do padre e do juizado local, por ser menor de idade, casaram-se e viajaram direto para o Brasil. Que vale é que Manuel, em seus vinte três anos, tinha ambição, queria alargar as vistas de filho de camponês, trabalhador do campo, e entrar com fôlego em nova carreira.
Foi tudo muito rápido porque a vergonha de uma barriga inchada seria demais para o pai-professor. Bastava o escândalo da irmã mais velha, que se casara com um padre. Se não se apressassem, surra no futuro noivo, de pai e tio bem machos, acostumados a dar o troco no muque. Sobretudo o tio, rude trabalhador rural, que jamais largara os vinhedos para embrenhar-se em escola e letras. Sabia, isso sim, distinguir as uvas que prestavam para o vinho maduro e o vinho doce de sua terra.
A viagem de Maria Joana e Manuel não podia agradar a ninguém: na terceira classe de um navio nada era flores. Chegaram ao Brasil daquele jeito de cansaço, depois de dez dias de muito enjôo e ansiedade. Mal conseguiram apertar a mão do amigo caído do céu.
Logo foram com ele, de barca, para outra cidade, que não o Rio de Janeiro, do outro lado de uma baía: Niterói. Ânimo revigorado pela brisa fresca, o mar parecia-lhes bem diverso do marzão sem fim da viagem. Uma hora, no máximo. Apesar de um certo medo a lhes arrepiar o corpo, até o atracar da embarcação - reflexo dos muitos dias de nenhuma visão no horizonte.
O amigo da família, Sr. Joaquim dos Santos, de mais de cinquenta anos, radicado no Brasil há bem uns trinta, lhes perguntou, com sotaque familiar:
- Antão, estão a gostar da paisagem?
- Pois sim -, responderam em uníssono.
Gostaram de fato da cidade, sem ligar para o calor do verão de trinta e muitos graus. Ainda que se instalassem no centro, perto das Barcas e do armazém do amigo Sr. Joaquim. O mar sempre aparecia, mas deixaram-no para os passeios a pé aos domingos, no caminho para a praia de Gragoatá e, anos depois, para o passeio maior à Praia de Icaraí, essa sim, uma jóia. Tão preciosa que a adotaram como lazer primeiro, depois, como moradia.
Maria Joana teve filhos gêmeos, o que a tomou por inteiro. Como se pouco fosse, uma menina e mais um menino, logo depois. Aí foi que, pela primeira vez, a moça ouviu falar de evitar filho com tabela de dias férteis, tarefa que aprendeu com grande dificuldade, graças a uma vizinha mais viva.
Porque homem da classe popular, os ministros do governo que não se enganem, até hoje, não quer saber de sacrifício sexual. Nada de camisinha de Vênus.
Tropeços normais da vida, Maria Joana ia se fazendo meio-brasileira. O marido bem posto na vida, fez-se sócio da casa, com boa aceitação entre a Colônia lusa niteroiense. Havia visitado Portugal uma única vez, por insistência do sócio.
- O´Pá. Nunca mais voltas à Terrinha? Olha que Portugal é um b´leza. Deixa a família um pouco e vá sozinho.
Maria Joana aceitou esperar sua vez. Em vão. Havia sempre uma desculpa, coisa de marido sovina, que quer juntar dinheiro para o futuro.
O tempo passava e ela com as mazelas de criança, seguidas dos deveres na escola. Freqüentaram boas escolas privadas os miúdos. De repente, sem que se percebesse, os gêmeos formaram-se em medicina e direito, a menina, em pedagogia, o menor, com vocação para músico, fez carreira na Escola de Música do Rio de Janeiro, sucesso quase garantido.
E Portugal? E sua aldeia querida? E a família lusitana?
A morte do marido por enfarte súbito a levou à aceitação serena, por causa dos filhos e das amigas, que a haviam acompanhado nos bons dias e agora a amparavam no enterro e na solidão de viúva.
Foi de uma delas a idéia de irem a Portugal, refrescar os miolos, rever o que sobrara das intempéries naturais do viver.
- Esse negócio de carta pra lá, carta pra cá, é pouco. Você está com os filhos criados, Joana. Eu posso ir com você na viagem. Estou sozinha, eu e Deus, e tenho minhas economias, desde o tempo de meu marido vivo. Vamos?
Maria Joana se preparou meses, com minúcias. Queria vestir-se bem, aparentar juventude eterna, nunca se queixar, para deixar os de lá embasbacados com o Brasil. Exaltar Niterói, com sua beleza natural, sua calma, sua completa falta de perigos urbanos.
Ao espelho, decidiu fazer uma puxada nos olhos meio caídos. Afinal, a plástica entrara em voga e ela havia sido uma moça bem faceira. Não haveria decepção dos familiares. Sobretudo, se desse com o primo quase namoradinho da mesma idade e gosto mais requintado que o dela: aquele que lhe declamava poemas dos afamados poetas portugueses, voz meio rouquenha de emoção, olhos mornos de amor.
Em homenagem ao primo, tome de regime para emagrecer uns bons cinco quilos, além da plástica. Quem sabe, não iriam a alguma festa na cidade do Porto, bem mais pra frente que a aldeia de seu pai? Ou mesmo a Coimbra e Lisboa, num feriado mais longo, quando as universidades davam descanso aos lentes - o primo estava em fins de carreira em Coimbra: ainda não tinha tempo para a aposentadoria.
.Passagens compradas, Maria Joana e a amiga lá se foram, não importa o medo de avião das estreantes. Reza e comprimidos calmantes as ajudaram a vencer o desafio de voar lá acima das nuvens, que coisa!!!
Chegaram estropiadas, mas felizes. Lindo o aeroporto, linda Lisboa. Pena que só de passagem para a aldeia. A luso-brasileira não queria demorar em city tours porque havia avisado o dia da chegada à prima Ambrosina, que herdara a casa paterna, com aquiescência da família. Afinal, era solteira. M´nina Ambrosina.
Pisaram a Régua, que espanto! Como progredira a cidade, para quem se lembrava de uma vila bem atrasada, quase sem nenhum sinal de modernidade. Almoçaram um peixe assado na brasa daqueles regados ao azeite, com vinho e tudo, num restaurante logo acima da ponte sobre o rio, pegaram novo ânimo e de táxi, vejam só, rumo à terra de Maria Joana, que português que se preza não renega a pátria.
Na entrada da aldeia, a placa com o nome escrito em azulejos azul e branco a fez tremer e marejar. Pronto, lá vinham as lágrimas a estragar o prazer. A amiga brasileira, de tanto ouvir falar das belezas da Serra do Marão, apertou-lhe as mãos, solidária.
Num aclive do monte, em domínio da região, a casa branca. Correria desenfreada para os braços da prima idosa, Ambrosina:
- Ai, Jesus que chegaram as brasileiras, chegaram as brasileiras!
Estranhou ser chamada de brasileira, mas calou-se: era o apelido dado a todos que ficavam no Brasil e regressavam à terra, de visita.
No inverno ameno português, o frio pedia aconchego e conversa fora. Não um frio de morte como o da Suécia, Dinamarca, Rússia...
Pela janela, a noite de breu e silêncio, nenhum ruído a intervir no eco das vozes femininas. Ambrosina preparou o aquecedor meio primitivo na sala e nos quartos, acendeu a lareira na cozinha e, bem agasalhadas, as lembranças afluíam como se fosse ontem: gente que Maria Joana havia deixado sem muita vontade, exceto o pai e a mãe, cuja morte lhe havia sido comunicada de supetão, por telegrama.
- E a prima Isabel?
- Casou e mudou-se pra Lisboa há muito tempo. Tornou -se uma lisboeta de truz e lá deitou raízes, quase sem contacto conosco. Lá uma vez ou outra, num Natal, um cartãozito, mais nada. Tá com dois filhos bem taludos. Se quiseres, dou-te o endereço dela.
- E o tio Alfredo, mais a tia Firmina?
- Moraram sempre noutra região, na Serra da Estrela, lembras-te? A família nos visitava a mim e à minha irmã durante anos, mas a velhice e a doença nos prende a todos ao chão próximo. Morreram faz algum tempo, bem antes de minha irmã. Eu não quis mandar dizer pra não te aborrecer com lamúrias. O Brasil fica muito longe para estares a vir a enterros. Ainda bem que só falto eu a morrer.
- E o primo, professor de Coimbra?
- Não recebeste nenhuma notícia, de lado nenhum? Morreu de enfarte há meses. Nem chegou a se aposentar. Faltava um tempo, sei lá eu quanto.
- Tens certeza? É mesmo aquele que me declamava versos românticos, tás lembrada?
- É ele, sim senhor. O Alfredo. Morava em Coimbra. O irmão morreu faz dois anos, de derrame cerebral. Mas com ele, tu não tinhas lá muito a ver, não é mesmo?
Tonta, Maria Joana viu pela vidraça da janela a serra sem beleza, em noite de arrepios. Tentou respirar o ar puro bem diferente do seu ar brasileiro de cidade:, o frio empacou-lhe o desejo. Enxugou o canto dos olhos com a barra da blusa e disse:
- Q´rida prima. Volto amanhã sem falta pro Brasil. Adeus!!!!!!

Maria Lindgren

Um comentário:

cristal de uma mulher disse...

Que bom saber que dentro de cada nós existe um infinito de palavras que podemos adiministrar e conquistar os amigos..Otimos textos amiga voltarei

Lento..., extrato de poema de Natercia Freire

" Estou no fundo ou estou nos cimos?
Estou morta ou estou a sonhar?
Tenho as mãos presas nos limos
ou molhadas de luar"


Boas-vindas

Minha gente querida
Agradeço muito a visita a meu vício mais atual de escrever.
Que gostem e me perdoem os errinhos. Sou uma velha novata.
Maria Lindgren